Sabrina Noivas 85 - The Diamond Bride  

Uma torrente de paixo invadiu o corao de Anne!
Anne vibrava da cabea aos ps, cheia de desejo, querendo que aquele prazer no terminasse nunca. Mas parou bruscamente quando Raphael se afastou com um olhar to sombrio que seus olhos ficaram negros novamente. "Voc no est apaixonada por Anthony, Anne. No est apaixonada por ningum. No teria me beijado assim, se estivesse." Anne, perdida em emoes confusas, no soube o que responder. Mas, naquele momento, tinha certeza de que Raphael estava certo: s ele poderia preencher o vazio de seu corao!

Dados da Edio: Ed. Nova Cultural 1998
Publicao original: 1998 Gnero: Romance histrico contemporneo
Digitalizao e correo: Nina Estado da Obra: Corrigida

Srie Nanny Wanted
Autor	Ttulo	Ebooks	Date
Wilkinson, Lee	The Secret Mother
Sabrina Cegonha 41 - 
Me Secreta	Jan-1998Ross, Kathryn	The Love-Child
	Feb-1998Lee, Miranda	A Nanny Named Nick
	Mar-1998Spencer, Catherine	A Nanny in the Family
	Apr-1998Hamilton, Diana	The Millionaire's Baby
	May-1998Craven, Sara	Ultimate Temptation
	Jun-1998Mortimer, Carole	The Diamond Bride
Sabrina Noivas 85 -
Uma Jia Para a Noite	Jul-1998Darcy, Emma	Inherited: One Nanny
	Aug-1998Donald, Robyn	Nanny Affair
	Sep-1998Armstrong, Lindsay	Accidental Nanny
	Oct-1998Williams, Cathy	A Daughter for Christmas
	Nov-1998Craven, Sara	A Nanny for Christmas
	Dec-1998
        

    


CAPITULO I

S. e est pensando em se jogar, espere 'a mar subir! Anne Fletcher voltou-se de imediato em direo  voz grave, que no reconhecia.
No meio do denso nevoeiro divisou uma sombra, uma figura grande e assustadora.
Se pular agora, s vai conseguir enterrar os tornozelos na lama.
Parada na ponta de um pequeno ancoradouro, perdida em pensamentos, Anne no percebeu que o homem se aproximara. Ento se deu conta de que se encontrava sozinha na densa neblina e que ningum a veria da casa majestosa que se erguia no alto do rochedo. A famlia Diamond raramente vinha quela praia e com certeza ningum apareceria a tal hora do dia.
Ao se ver s com um estranho, se deu conta do perigo que corria.
	A famlia Diamond no vai gostar que outra pessoa se suicide na sua propriedade  o homem continuou.
Suicdio? Quem teria se jogado dali?
Anne no soube o que dizer. Mas tinha de admitir que, com a mar baixa e tanta neblina, era muito estranho encontrar uma pessoa parada na ponta do ancoradouro. S que da ao suicdio...
Num ato instintivo, recuou um passo quando a sombra avanou em sua direo, mas acabou se colocando entre ele e a grade de segurana, sem ter para onde.
Anne levou um susto quando o homem se aproximou: era a sntese perfeita dos heris de fico. A primeira vista, lembrava o romntico e elegante Rochester, com seus cabelos negros indomveis, o rosto forte e poderoso, os olhos pretos como o carvo. Era Rochester em carne e osso, podia jurar!
Anne sentiu um calafrio. Seria por causa dele ou pela umidade que penetrava em seus ossos, mesmo estando protegida por uma grossa jaqueta de brim?
O gato comeu sua lngua?  o estranho a desafiou, arqueando uma sobrancelha.
Estava perto... perto demais! Os olhos nem eram to negros, mas de um tom escuro, a pupila quase invisvel sobre o azul-cobalto da ris, as feies como que esculpidas em granito.
O rapaz inclinou a cabea de lado, com uma expresso curiosa no rosto; alguns fios reluzentes de cabelo chegavam na altura dos ombros, protegidos da umidade por uma jaqueta escura, camisa azul e jeans desbotado.
"Entrada proibida".  Ele leu, apontando com o dedo,
a placa que impedia o acesso  praia.
Anne umedeceu os lbios ressecados. A nica maneira de sair dali era passando pelo jovem, porm as chances de conseguir eram mnimas.
Leitora vida, imaginou o que uma herona de fico faria nessa situao. Distra-lo, era isso! Esperaria que o homem baixasse a guarda para que pudesse fugir. Quando estivesse encoberta pela neblina, no seria mais encontrada.
Anne tentou um sorriso simptico, conciliatrio.
V embora, e a famlia Diamond no saber que esteve aqui  ela sugeriu, desejando que o pnico no transparecesse em sua voz.
Uma expresso divertida apareceu no rosto dele.
Ir embora?! Meu bem, no tenho nenhuma inteno de fazer isso.
"Como no?! Que impertinncia!" Anne engoliu em seco, as mos cerradas nos bolsos do agasalho, tentando manter a calma.
	E o melhor que o senhor tem a fazer. Antes que o sr.
Diamond descubra que est aqui.
	Sr. Diamond?  repetiu, curioso.
	Anthony Diamond!  Anne completou o mais rpido possvel, achando que assim o convenceria.
	Ele est aqui?  Olhou para a casa no alto do rochedo.
	Est, sim. Esto todos l.
	 mesmo?  O desconhecido a desafiou, a expresso mais suave agora, a boca se curvando num sorriso.  Bem, posso garantir que Anthony no vir. Ele morre de medo do mar, sobretudo depois do acidente de barco que aconteceu tempos atrs. A menos,  claro, que vocs dois tenham combinado de se encontrar aqui...
Anne esqueceu-se do temor por um momento. O que aquele atrevido queria dizer com aquilo? No conhecia Anthony, e muito menos ela, para dizer uma coisa dessas.
 isso, minha jovem?  o nico lugar em que Davina no viria procur-lo, pois conhece sua total averso a gua!
Davina era a noiva de Anthony. Aquele estranho parecia conhecer muito bem a famlia Diamond.
Atento, ele a perscrutava com o olhar, como se quisesse assimilar tudo de uma vez: os cabelos curtos e ondulados emoldurando o rosto angelical dominado por profundos olhos azuis, o narizinho arrebitado, os lbios fartos e sorridentes quase sempre, quando no se sentia acuada por estranhos, um queixo pequeno e determinado, mais parecendo um menino usando jaqueta, bon azul e cala de brim colada no corpo.
Voc no  do tipo que Anthony aprecia  o homem concluiu aps a inspeo.  Mas, depois que se fica velho, deve-se chegar  concluso de que as jovens devem ser mais impressionveis e fceis de se lidar. Fcil de impressionar!
Bem, aos trinta e seis anos no era possvel considerar Anthony uma pessoa de idade, e nem Anne era to jovem assim. Tinha vinte e dois, e j poderia estar casada e com filhos pequenos.
Anne olhou-o com frieza.
Como o senhor acaba de dizer, Anthony Diamond est noivo.  Anne estava agora mais indignada do que com medo. Aquele desconhecido no s invadira uma propriedade particular como insultava a famlia como se a conhecesse a fundo.
De Davina. Eles tm uma boa relao, mas isso no impede que Anthony olhe para outras. Voc no deve ser daqui  ele acrescentou, hesitante.  Pelo que sei, Anthony j esteve com todas as moas disponveis da vila. A menos que seja casada.
O rapaz estava achando que ela morava na vila a dois quilmetros dali. Se no fosse um forasteiro, saberia que era a bab da criana da famlia Diamond.
	No sou casada, nem estou disponvel  retrucou, zangada.  E prefiro que no continue a insultar os Diamond!
	Estou insultando apenas Anthony.  O jovem deixava evidente seu desprezo. Ento, consultou o reluzente relgio de ouro em seu pulso.  Ele no vem. J estou observando voc h uns dez minutos.
Anne colocou-se numa atitude defensiva quando soube que estava sendo observada. Sentia-se muito perturbada quando chegou, os pensamentos tumultuados, o que devia estar muito claro em seu rosto quando ele ps os olhos nela. E foi decerto por isso que falou em suicdio. E verdade que sua vida andava meio complicada, mas no era nada to desesperador.
	Espero que no venha mesmo, senhor, para seu prprio bem. O senhor invadiu uma propriedade privada  Anne salientou, irritada, mas o homem ainda no se impressionou.
	Voc tambm. Ainda que Anthony no se importe que esteja aqui, e o resto da famlia? Raphael, por exemplo?
; Raphael no est aqui  Anne respondeu com impacincia, j se cansando daquela intil discusso.
Raphael Diamond, o chefe da famlia e pai da criana de quem Anne cuidava, estava fora no momento. Na verdade, havia trs meses. Como reprter de campo de certa reputao, ia de um lugar a outro do mundo, aos pases em guerra, desde que Anne havia chegado para cuidar de sua filha. A me dele, Clia, a matriarca dos Diamond, foi quem a contratou quando a bab anterior abandonou o emprego.
	Voc disse que a famlia est em casa?
	Est.  Anne franziu as sobrancelhas.  Mas o sr. Diamond, o pai...
	Raphael?  O tom irnico fez escurecer ainda mais seus olhos. Dentes brancos e ameaadores surgiram por trs do sorriso de lobo.  E a primeira vez que ouo algum referir-se a ele dessa maneira. At parece um av senil.
	Nem sei que idade tem o sr. Raphael Diamond. S sei que  mais velho que Anthony.
	Trs anos, para ser preciso. E esteja certa de que sinto cada um deles nas costas  acrescentou, atento  reao dela. E no se desapontou.
"Esse  Raphael Diamond? Esse homem de cabelos longos e desgrenhados, olhos penetrantes, de feies to msculas, grande e poderoso?!"
Anne tentara imagin-lo, baseando-se nas vagas menes da famlia a seu respeito e na profunda adorao que Jssica nutria pelo pai, mas com certeza a imagem que fizera no era nada parecida com aquele deus grego a sua frente, perigosamente bonito, envolvido por uma aura incrvel de poder.
Talvez porque fosse o oposto de seu irmo. Anthony era muito loiro, belssimo, com olhos azuis como o cu de um dia de vero, sempre muito bem trajado com roupas feitas sob medida. To diferentes que ningum diria que eram irmos.
Anne inspirou devagar, dando tempo para se recompor.
Prazer em conhec-lo, sr. Diamond.  Estendeu a mo para cumpriment-lo.
Raphael permaneceu imvel observando-a por entre as plpebras semicerradas.
 mesmo?  indagou, inabalvel.
Anne engoliu em seco, deixando o brao voltar para bem perto da cintura e sentindo as mos quentes e midas, apesar do frio.
 Sou a nova bab de Jssica, sr. Diamond.
E Margaret?
Anne umedeceu os lbios outra vez ao sentir o medo voltar.
	Ela foi embora.
	J percebi.
	A sra. Diamond ligou para uma agncia de empregos...
	Para qu?  Seu mau humor aumentava a cada minuto.
	Eu j disse, Margaret foi embora, e Jssica precisava...
	Por que Margaret se foi  o que quero saber.
	No tenho a menor ideia. Pergunte  sra. Diamond.
	Pode estar certa de que  o que farei.  No mesmo
instante, Raphael tomou o caminho para o penhasco. Mas, antes de desaparecer na neblina, parou.  Aconselho-a a voltar para casa em vez de ficar a se lamuriando por um irresponsvel como meu irmo!
Ento, Raphael desapareceu no meio da neblina, e o silncio voltou a imperar.
Como se nada tivesse acontecido...
Mas acontecera, e Anne ainda tremia de pavor. Preferia que Raphael fosse um intruso. Seria muito melhor do que t-lo como patro. O fato de a bab anterior ter ido embora deixara-o furioso, e na certa a substituta no tinha agradado.
Sem dvida, era o prprio Rochester! Quando Anne lera esse clssico na adolescncia, identificara-se, talvez pela prpria condio de rf, com Jane Eyre, embora sua infncia tivesse sido feliz. Mas Raphael Diamond, bvio, no era o sr. Rochester. E muito menos ela era Jane Eyre.
Anne ficou se perguntando como teria se comportado se soubesse quem ele era. Evidente que de um modo diferente, mas no muito. Afinal, partira dele, sem conhec-la, a referncia insultuosa a um suposto relacionamento com seu irmo.
Anne estava agora mais confusa do que uma hora atrs, quando o encontrou. Ficara to animada com a chance daquele trabalho na costa da Inglaterra, que chegara cheia de entusiasmo, contente por poder sair de Londres, onde sempre vivera.
Estar ali, circundada por aquele ambiente rural, fazia-lhe muito bem. Adorava a amplido dos espaos abertos, a gentileza dos habitantes locais. Pela primeira vez na vida tinha chamado um leiteiro pelo nome! Em Londres, nem sabia quem ele era. Comprava tudo, inclusive leite, na loja da esquina de seu prdio, onde dividia um apartamento com trs amigas.
Depois de ter passado a infncia em casas de famlia, escolher o curso universitrio de bab qualificada foi a consequncia lgica por ter cuidado de tantas crianas menores das residncias em que morara. Assim como dividir um apartamento com as outras moas do orfanato quando chegou a hora de sair.
Conseguiu um emprego num jardim-de-infncia depois que se formou, mas cuidar de quarenta pequeninos que voltavam para a casa dos pais no final do dia no lhe dava mais razes do que as que encontrara no orfanato. Por isso, inscreveu-se numa agncia de empregos com a inteno de trabalhar num ambiente familiar. Jssica Diamond era a primeira criana de quem cuidava nessa sua nova fase. E Anne logo aprendeu a am-la.
Jssica, uma criana adorvel de oito anos de idade, tinha cabelos longos e cacheados, olhos azuis e uma inteligncia brilhante. E, convivendo a maior parte do tempo apenas com a av e com seu tio Anthony, que s aparecia nos fins de semana, foi muito fcil apegar-se  menina, que corria para seus braos quando chegava da escola. Nos dias ensolarados, as duas cavalgavam pelas praias. Se chovia, divertiam-se com os inmeros brinquedos que Jssica tinha em seu quarto.
Mas agora o pai dela voltara. E no parecia nada feliz por encontrar sua filha com uma nova bab...
O futuro de repente ficou mais sombrio do que estava uma hora atrs. Ainda mais porque Raphael Diamond chegaria em casa e descobriria que Jssica tinha cado do cavalo e estava de cama com o tornozelo torcido. Que bela bab tinham arrumado!
Para falar a verdade, no havia.nada que Anne pudesse fazer para evitar o acidente, mera aprendiz que era no que dizia respeito a cavalgadas. Mas Raphael, pelo visto, no encararia o fato daquela forma, em primeiro lugar porque no estava nada satisfeito com a troca de babs.
Anne sentiu os olhos arderem quando lgrimas passaram a se formar. Gostara de Jssica  primeira vista, e muito mais quando viu que a garota era to carente de afeto quanto ela. Talvez no devesse ter permitido que Jssica se apegasse tanto, mas, por ser uma criana to necessitada de amor, foi impossvel impedir.
Jssica mal se lembrava da me por t-la perdido muito cedo. Clia Diamond, sua av, era uma mulher altiva, loira e ainda muito bonita a despeito de seus sessenta e poucos anos, mas que, era visvel, tinha dificuldade de demostrar afeio a uma criana. Um rpido boa-noite em sua saleta particular era o mximo de ateno que dava  neta.
Mas agora o pai de Jssica tinha voltado e as coisas poderiam mudar. E uma das mudanas poderia ser a dispensa da nova bab.
Anne arrastava-se com relutncia quando tomou o caminho de volta para a manso. Mesmo assim, andava com muito cuidado. O tempo piorara, e ela teve de se apoiar vrias vezes no corrimo, escorregando nas pedras midas. Por fim, avistou a residncia.
A Casa dos Rochedos era uma construo suntuosa, de propores quase gticas. Anne levou quase uma semana para aprender onde ficava seu quarto. Era incrvel que apenas uma senhora de idade e uma criana morassem num lugar to grande.
Embora fosse verdade que, com a chegada de Anthony e sua noiva, no dia anterior, para passar uma semana, a casa pareceu de repente pequena para tanta gente.
E alguma coisa lhe dizia que ficaria menor ainda com a impositiva presena de Raphael Diamond!
	Ora, Raphael, no sei por que deveria avis-lo  Clia Diamond protestava, impaciente, quando Anne passou pela porta da sala.  O mdico disse que foi uma simples toro, nada para se preocupar, e Anne est cuidando de Jssica muito bem.
	Quem  Anne?  Aquela voz, agora to conhecida, inquiriu com rispidez.
	A nova bab, por quem parece estar to irritado  Clia retrucou, com frieza.  Voc no estava aqui, Raphael... Bom, no est nunca, no ? O que queria que eu fizesse, se Margaret saiu sem avisar?
Anne no conseguia se mexer. Parecia petrificada desde o momento em que ouvira seu nome.
	Seria demais esperar que a senhora cuidasse de Jssica sozinha. E ainda no me deu uma explicao aceitvel para a sada de Margaret. E se essa tal Anne cuida to bem de Jssica, por que ela est l no quarto com um tornozelo torcido?
Anne no acreditou na injustia do que acabara de ouvir.  Era impossvel, a no ser que amarrasse a menina, controlar todos seus movimentos. Jssica andava a cavalo fazia muito tempo, e havia sido ele mesmo quem dera a ela o cavalo que a derrubara.
	 melhor eu mesmo perguntar.  Assim que Raphael acabou de falar, a porta da sala se abriu, revelando uma moa envergonhada, encostada na parede do corredor. ; Muito bem, voc  Anne?
Ela levou um susto. No s por ter sido pega em flagrante, mas porque ele sabia que era. Anne tinha acabado de lhe dizer que era a bab de sua filha.
	Francamente, Raphael!  Clia Diamond repreendeu-o.  As vezes no acredito que seja filho de David. Seu pai sempre foi to gentil, to consciente de seu papel de chefe da famlia!
Raphael lanou-lhe um olhar insolente.
	Quer dizer, voc sempre foi muito consciente de seu papel de esposa do chefe desta famlia! Estou certo de que papai morreu cedo para se livrar de voc e suas poses sociais!
	Raphael!  Clia apertou o colar de prolas contra o pescoo, sufocando um grito de indignao.  A longa ausncia no suavizou sua lngua ferina. Esquece que h cria dos na casa?
Anne s se deu conta de a quem Clia se referia segundos depois: ela mesma. Uma criada! Bem, at podia ser. Trabalhava para aquela gente e recebia um salrio. Mesmo assim...
	Parece que Anne no gostou muito dessa observao, Clia  Raphael interps-se.
Anne olhou para ele e viu em seu rosto uma expresso irnica. Pelo jeito, estivera observando suas reaes, e divertindo-se muito com elas.
Ergueu a cabea, orgulhosa.
	A sra. Diamond est certa, senhor,  claro. Esta conversa parece ser muito ntima. Mas estou a sua disposio, sr. Diamond, para conversarmos sobre o acidente de Jssica numa ocasio mais conveniente.  Enfrentou seu olhar com valentia, embora sem entender por que ele no tinha contado  me que se conheceram no ancoradouro.
Por que Raphael nada dissera a Clia Diamond? E por que ela prpria no dizia? Essa resposta era fcil: porque Anne no devia ter ficado na praia a tarde toda. Clia Diamond a aconselhara, logo que chegara  casa, a no ir l quando o tempo estivesse ruim.
	Agora  bem conveniente para mim, Anne.
	E a tarde de folga de Anne, Raphael  Clia informou-o, antes que Anne dissesse alguma coisa.
Raphael ficou olhando para ela, impenetrvel.
	E mesmo?  perguntou, enfim.
Estava muito claro que, com essa nova informao, ele tirava suas prprias concluses. A indagao estava l, em seu ar de troa.
	E, senhor. S que no vou a lugar nenhum. Vou apenas verificar como est Jssica. Poderemos conversar quando o senhor terminar de conversar com sua me.
Raphael deu uma risada inesperada.
	Eu disse alguma coisa engraada, senhor?
	Para mim, sim. Para Clia, no.  Surgiu mais uma vez aquele sorriso perigoso.  Se estivesse aqui h dois meses, algum j teria lhe contado as histrias desta famlia...
	Raphael!  Clia repreendeu-o com energia, as faces manchadas por dois pontos rosados.
	Eu disse alguma coisa que os criados no podem ouvir?  ele a provocou.
Clia lanou-lhe um olhar glido, mas que em nada o afetou, e ento voltou-se para Anne.
	Importa-se de ir ver Jssica agora?  Foi uma ordem disfarada de sugesto.  Mais tarde voc e Raphael po
dero conversar.
Anne comeava a desejar jamais ter posto os olhos naquele homem.
No havia dvida de que Clia Diamond era uma pessoa mais condescendente ou que as coisas tinham se complicado um pouco depois da chegada de Anthony com a noiva. Mas, de sua parte, Anne gostava daquele lugar, adorava trabalhar com Jssica. Era verdade que nem tudo era paz e harmonia, mas ela amava Jssica, e todo o resto eram meros desconfortes com os quais j aprendera a lidar.
Com a chegada de Raphael Diamond, no entanto, tinha a sensao de que muita coisa iria mudar

CAPITULO II

	Voc viu? Papai chegou!  Jssica batia palmas, e seus olhos azuis brilhavam como dois diamantes
Anne adoraria partilhar o mesmo entusiasmo, mas, por ter acabado de se livrar de Raphael Diamond, no tinha nenhuma pressa de reencontr-lo. Jssica, porm, no via a hora de abraar o pai.
	Que bom, querida!  Anne ajeitou os travesseiros na cama.  Seu pai sempre aparece assim sem avisar?
	Sempre!  Jssica assentiu, balanando os cachinhos negros.  Do mesmo jeito que vai embora...
Era possvel. Como reprter de campo, Raphael tinha de estar onde a matria estivesse. Mas, para sua filha, no era fcil aceitar a situao. Mesmo assim, Jssica parecia ser uma menina bem-ajustada. Ningum podia dizer que se tratava de uma criana abandonada ou com distrbios psicolgicos.
Anne no sabia o que fizera de errado para deixar Raphael Diamond to zangado. Nem ele nem Clia tinham lhe dado explicaes. E comentar isso com Jssica no ia adiantar nada. Seria exigir demais de uma pobre criana.
	Como est se sentindo?
Jssica sorriu. Era o mesmo sorriso do pai.
	Muito bem, Anne. Vou descer para jantar!
Anne sentiu um aperto no corao. Se Jssica fosse comer com a famlia, teria de ir tambm. E se a tenso entre Clia e Raphael fosse um sinal do rebolio que ele costumava provocar na famlia, seria indigesto na certa.
Tem certeza, Jssica? Veja bem, voc precisa usar as muletas.
O acidente acontecera no fim de semana, havia apenas trs dias, e o mdico aconselhara um repouso mais longo antes de a garota apoiar o tornozelo no cho.
No comeo, Jssica adorava ser visitada em seu quarto, mas a novidade logo comeou a cansar. Naquela manh, ela se levantara um pouco e logo depois voltara a se deitar. A chegada do pai, no entanto, parecia ter renovado sua disposio.
	Papai pode me carregar na escada.  Jssica estava adorando essa ideia.
	Quanto antes voc conseguir andar, mais cedo voltar  escola, meu anjo.
O rosto da menina se iluminou mais ainda.
	Posso ir amanh?
Anne sorriu. A licena de uma semana que Jssica obteve na escola particular, que ficava a mais de trinta quilmetros da casa, tinha sido muito bem recebida, mas tambm no era mais novidade. Jssica sentia falta dos colegas, sobretudo de Lucy, sua melhor amiga.
	Acho que ainda  cedo, Jssica. Mas voc vai poder passar mais tempo com seu pai.  No mesmo instante, Anne sentiu seu humor mudar, pois isso significava que tambm iria ficar perto dele.  Por falar nisso, vou me vestir para jantar, e volto para ajud-la.
	Meu pai vem logo, Anne?
Talvez sim, quando acabasse de esbravejar com Clia, ela pensou.
	Com certeza.  Anne apertou a mozinha de Jssica, transmitindo-lhe segurana.  Ele est conversando com sua av e j vai subir.
	Ah...
Pelo jeito, a tenso que existia entre me e filho no era segredo para ningum, nem para a criana.
	Procure repousar um pouco para no ter sono muito cedo, Jssica.
Indo distrada para seu quarto, Anne pensava que preferia dormir em vez de jantar. A presena de Raphael no prometia uma refeio agradvel.
	Anne!
Ela virou-se ao ouvir seu nome. Era Anthony, que vinha pelo corredor em sua direo. Toda vez que o via, uma beleza de tirar o flego, seu corao dava um salto. Anne ficou enfeitiada desde a primeiro instante em que ps os olhos sobre ele.
	Desculpe-me por t-la feito esperar.  Anthony estava agitado, os cabelos desalinhados, evidenciando grande preocupao.  Davina quis ir  cidade e fui obrigado a lev-la por causa do mau tempo. Espero no t-la feito aguardar muito tempo naquele ancoradouro.
Anthony pegou a mo de Anne, que parecia perdida naquele par de olhos azuis.
Mas como Raphael sabia que ela estava esperando por Anthony?
E, acima de tudo, como podia ter notado que estava louca por ele?
Estava mesmo, desde o primeiro fim de semana em que Anthony apareceu. Quando soube que estava comprometido com outra pessoa, era tarde demais. E, a bem da verdade, tratava-se de um compromisso impossvel de ser desfeito.
	No muito  ela mentiu, pois ficara l por mais de uma hora. A proximidade de Anthony estava deixando-a quase sem ar.
	Perdoe-me.  Sorridente, apertou a mo dela.  Sei que precisamos conversar, que voc que tem muitas perguntas a me fazer.
Anne sentiu uma forte palpitao s de pensar na possibilidade de que Anthony tambm sentisse algo por ela. De que quisesse beij-la de novo, como no domingo...
Clia e Davina tinham sado de manh para visitar alguns amigos, e Anthony ficara estudando um processo do qual estava cuidando em Londres. Mais tarde, confessou a Anne que tambm esperava uma oportunidade de ficarem a ss.
Por um lado, foi bom ele ter ficado, porque ajudou muito no acidente de Jssica. Foi Anthony quem as levou ao hospital, depois carregou a sobrinha para o quarto e ficou fazendo companhia a Anne at a menina dormir.
Foi ento que a beijou. Anne levara um susto. Ficara maravilhada, extasiada, porque a atrao que sentira, nas semanas anteriores, voltara com toda a fora.
Depois, sentira-se arrasada. Muito envergonhada, porque Anthony era noivo de outra.
Anthony garantiu-lhe que no amava Davina, mas que era quase impossvel dizer isso a ela no momento, uma vez que seu pai era scio majoritrio do escritrio de advocacia para o qual ele trabalhava.
Anne entendia seu problema, mas no sabia onde se encaixava nele.
	No faz mal, Anthony.  Ela o perdoava por no ter aparecido ao encontro, mas incomodava-a o noivado com Davina.  Seu irmo chegou.
As palavras de Anne como que provocaram um choque eltrico em Anthony. Ele recuou, com um gesto brusco, e soltou os dedos dela.
	Raphael chegou?  Anthony arregalou os maravilhosos olhos azuis.
	Est l embaixo, com sua me.  Anne baixou a cabea, ela prpria sentindo-se muito mal com a chegada daquele homem. A nica que parecia estar feliz era Jssica.
 No sei como no o encontrou antes de subir.
	Vim direto atrs de voc. Sabe quanto tempo Raphael vai ficar?
	Anthony, ele acabou de chegar!  respondeu, pesarosa.
	Sua ltima visita  filha durou apenas vinte e quatro horas  Anthony recordou, com desprezo.  Voc o viu? Falou com ele? Pelo jeito, parece que sim. Indelicado como sempre, no?
Anne umedeceu os lbios.
	Acho que seu irmo no gostou da sada de Margaret.
Anthony franziu a testa.
	Por qu? Afinal, era s uma bab... Ah, desculpe-me, querida, no me referi a voc!
Anne ficou um pouco assustada por ter sido chamada de "querida".
	E que Jessy teve muitas babs. Nem sei como Raphael consegue diferenciar uma da outra.
Bem, ele tinha percebido a diferena. Mas Anne ainda estava atordoada pelo fato de ter sido chamada de "querida"...
	Margaret  loira. Anne  ruiva.  Era aquela voz que j estava se tornando bem conhecida. Raphael Diamond falava com sarcasmo, aproximando-se no corredor.  Qualquer um percebe a diferena.
Mais uma vez, Anne surpreendeu-se com a incrvel diferena entre os dois: agora que estavam prximos, via-se que Raphael era bem mais alto, tinha cabelos longos, negros e desalinhados, enquanto os de Anthony eram loiros e sempre muito bem penteados. Raphael tambm era mais forte. At as roupas que eles usavam eram de estilos bastante diferentes. Embora fossem ambos lindos, eram belezas distintas: Anthony parecia um menino bonito, ao passo que o rosto de Raphael lembrava uma escultura de pedra.
Se Raphael ouvira o que disseram sobre as babs de Jssica, teria ouvido tambm Anthony trat-la com intimidade?
Os olhos azul-cobalto fixavam os dois, mas foi ao irmo que Raphael se dirigiu:
	Davina andou procurando por voc. E eu lhe disse que fosse atrs de uma carinha bonita, que o encontraria! Como se v, acertei  concluiu, encarando Anne.
Ela sentiu-se corar. No por ele ter dito que era bonita. Mas, afinal, por que a tratava com tanto desprezo se nem sequer a conhecia? E, pelo jeito, no tinha nenhuma inteno de conhec-la melhor.
	Perguntei a Anthony se o senhor j estava vindo para ver Jssica  Anne inventou uma desculpa.  Ela est esperando.
	Estou indo.  A expresso de Raphael mostrava ser evidente que estava se deliciando com alguma coisa. Na certa, com ela. Aquele jeito deixava seu semblante ainda mais sombrio.
Anne enfrentou-o com coragem:
	Jssica ficar muito feliz.
Para sua surpresa, Raphael jogou a cabea para trs e soltou uma ruidosa gargalhada. Ainda sorrindo, estendeu a mo e pegou uma mecha dos cabelos dela.
Andei pensando se esta cor seria natural ou vendida em frascos. Agora estou vendo que  natural. Seu eu fosse voc, Anthony, tomaria cuidado. As ruivas so perigosas!
Raphael deixou a provocao pairando no ar e foi para o quarto de Jssica.
Os gritos de alegria da menina foram ouvidos logo em seguida.
	O que ele quis dizer com isso? O que foi que vocs conversaram l embaixo?  Anthony parecia preocupado.
Anne ajeitou os cabelos com as mos trmulas. Raphael Diamond tratava-a como se tivesse a idade de Jssica, mas, pela insinuao que acabara de fazer, no devia acreditar muito nisso.
	Anne! Eu perguntei sobre o que vocs conversaram!  Anthony repetiu, impaciente.
Ela no queria comentar o dilogo que haviam tido na praia, e no podia faz-lo. Ningum precisava saber que aquele encontro fora to perturbador.
	Pouca coisa, Anthony. Mas seu irmo me disse que algum j morreu naquele ancoradouro.
Anthony mordeu o lbio, pensativo.
	Raphael disse isso? E falou quem foi?
	No. Na verdade, conversamos muito pouco.  Mas o suficiente para faz-la sentir-se uma tola.
	Acho interessante ele ter falado a respeito.
Anne ficou intrigada.
	Por qu?
	No importa. Como viu, com Raphael por perto precisamos ter mais cuidado para nos encontrar.
Alis, era nisso mesmo que Anne estava pensando naquele ancoradouro: se devia ou no continuar se encontrando com Anthony. No porque no a atrasse, ou porque no quisesse toc-lo, mas pelo fato de ele ter outra mulher, por mais que aquela relao fosse uma farsa.
Depois de muito pensar Anne chegou  concluso de que estava se envolvendo com o homem errado. Mesmo que a atrao fosse recproca, no lhe parecia certo ligar-se a algum que tinha outra pessoa.
Anne respirou fundo e resolveu dizer o que pensava:
	Acho que no devemos mais nos encontrar, Anthony.
	Eu estava esperando que voc dissesse isso! Anthony abraou-a. Quando a soltou, estava sorrindo.  Mas no ser por muito tempo. Raphael vai ficar aqui no mximo uns dois dias. Depois, tudo voltar ao normal e no temos mais com que nos preocupar.
No foi isso o que ela quis dizer. Por mais que lhe doesse, a nica concluso possvel sobre sua relao com Anthony era que devia terminar. Pelo menos at ele decidir o que fazer com seu noivado. Mas Anthony entendera outra coisa.
	Voc  maravilhosa, Anne. Como pude cometer a tolice de achar que seria possvel ter alguma coisa com Davina?
Vou conseguir ajeitar tudo, voc vai ver. Enquanto isso, pretendo ficar o mais possvel longe de Raphael. E sugiro que faa o mesmo.
Falar era fcil...
Como os Diamond costumavam se vestir para jantar, o fato de Raphael aparecer de smoking no foi nenhuma surpresa. Tambm era de se esperar que o formalismo do traje pouco fizesse para disfarar sua arrogncia.
	Nosso ratinho ainda est rugindo? Ou Anthony conseguiu atemoriz-la ao ponto de faz-la chorar?  ele provocou.
Jssica no entendeu a pergunta.
	De que ratinho voc est falando, pai?
Mas Anne sabia muito bem a quem se referia. Em geral, era uma pessoa calma e controlada, pois acessos de raiva no eram bem vistos nos orfanatos. Mas aquele homem tinha o poder de despertar um lado temerrio de sua natureza que durante muito tempo conseguira sufocar.
	O sr. Diamond no me atemorizou, de maneira alguma.
O bom humor abandonou o rosto risonho de Raphael que, ao franzir a testa, adquiriu uma aparncia ameaadora, o que fez com que Anne se perguntasse se fizera bem em responder-lhe de maneira to brusca. Afinal, ele era seu patro.
	No seja insolente, Anne  admoestou-a, como se adivinhasse seus pensamentos.
Na verdade, isso no seria nada difcil. Anne nunca foi muito boa em disfarar seus sentimentos. Mais uma razo para terminar sua recente relao com Anthony, por mais que viesse a sofrer por isso e at mesmo provocasse sua demisso. Aquele tipo de complicao nunca lhe ocorrera quando escolheu trabalhar num ambiente familiar.
	No tenho nada contra voc, Anne. Jssica no cansou de exaltar suas virtudes.  Raphael acariciou a cabea da menina e recebeu de volta uma risadinha feliz. Voltou-se para Anne com um olhar muito penetrante.  As crianas no se enganam com facilidade.
Era verdade. Quando tivera de morar na casa de outras pessoas, na infncia, sabia sempre quando estavam mesmo preocupadas com ela ou apenas querendo ser gentis.
	Papai, o que  exaltar as virtudes?
Raphael pegou a filha no colo e sorriu.
	E falar sempre as coisas boas que a pessoa faz. E para voc, mocinha, Anne  tima!
	E  mesmo  Jssica confirmou , sem nenhuma sombra de dvida.
	Eu sei que , minha querida.
Anne saiu atrs deles, emocionada com a intimidade entre pai e filha, apesar do longo tempo de separao. Ento, ouviu Raphael confidenciar ao ouvido da Jssica:
	Sabe de uma coisa? Quando conheci Anne esta tarde, achei que ela tivesse quase a sua idade! Ela fica mais velha com esse vestido preto  acrescentou, com um olhar perigoso.
	Fui eu que ajudei a escolher  Jssica disse orgulhosa.
Quando trabalhava no jardim-de-infncia e nada fazia durante a noite, Anne jamais se preocupara em ter roupas formais como as que se usavam nos jantares dos Diamond. Depois de descer duas noites de saia e blusa, e sentir-se uma mera ajudante, resolvera acabar com aquilo. Resolvera ir com Jssica para a cidade no sbado seguinte e comprara vestidos que, usados com diferentes acessrios, permitiam-lhe jantar com quem quer que aparecesse. Na mesma noite das compras, fora apresentada a um bispo e a um juiz, portanto, valera a pena o esforo.
Um dos trajes era preto, o outro azul-turquesa, e o outro, branco. Nessa noite, como Raphael Diamond notara, estava usando o preto, que no marcava seu corpo, mas tambm no o escondia. O comprimento, acima dos joelhos, revelava uma boa extenso de suas pernas bem torneadas. Outras vezes usara esse vestido com um longa echarpe florida ou com um blazer azul-claro, mas agora usava apenas um broche de prata acima do seio esquerdo, para no chamar muito a ateno.
	Mas Anne  muito mais velha que eu.  Jssica olhou para Raphael, escandalizada.  Tem vinte e dois anos. Foi ela mesma que me disse.
	Ah, ento  bem mais velha!  Raphael concordou, apenas curvando os lbios com um sorriso contido.
	Ora, papai! As vezes voc diz cada coisa!  Jssica falava como sua av e balanava a cabea com vigor, da mesma maneira como Clia fazia.
Mas Anne no concordava, pois era outra a impresso que tivera dele no primeiro encontro.
Aquela foi a refeio mais estranha que Anne presenciara em sua existncia, e no por culpa da comida. Como sempre, a sra. Wilson tinha preparado pratos deliciosos: pat caseiro, seguido por pato ao molho de laranja, e frutas frescas ao vinho do Porto de sobremesa.
A tenso  mesa  que era intolervel. Todos pareciam senti-la, com exceo de Jssica, que estava muito feliz por se ver ao lado do pai. E Raphael Diamond era o catalisador de toda aquela energia contida. Embora soubesse muito bem o que estava acontecendo, mostrava-se alheio a tudo o que ocorria ao redor.
Jssica sentara-se entre Anne e o pai, e Raphael precisou inclinar-se sobre ela para falar com Anne.
	Est se divertindo?
O que Anne gostaria era que o jantar terminasse logo, ao menos a parte que dizia respeito a si mesma e a Jssica. A menina, em geral, se retirava quando o caf e o vinho do Porto eram servidos. Ms naquela noite, devido  presena do pai, devia ser diferente.
Clia estava mais altiva do que nunca, ao passo que Da-vina, elegante como sempre, flertava, sem o menor pudor, com Raphael em todas as oportunidades. Anthony parecia estar sonhando, sem prestar ateno a ningum. Atine sentia-se aliviada por isso. A ltima coisa que queria era dar a Raphael mais munio contra si e contra Anthony.
	Estou sim, obrigada, senhor.
Raphael sorriu, irnico, diante de tanta formalidade.
	Mentirosa...  devolveu em voz baixa.
Anne enfrentou-o sem esquivar-se.
	Eu me referi  comida, claro.
Mais uma vez, Anne levou um susto quando Raphael deu uma gargalhada de prazer, aquelas linhas que ela j notara no canto dos olhos e ao redor da boca demonstrando ser marcas de um homem que ria muito. E desconfiou que no fosse sempre dos outros. Raphael tinha a capacidade de rir de si mesmo. Aquele homem era um enigma, um camaleo: num momento, era distante e inatingvel, em outro, tinha um humor explosivo. Devia levar uma vida inteira para conhec-lo melhor.
Anne parou de pensar quando olhou de relance para Anthony, como sempre, encantada por sua beleza, e percebeu que ele lhe sorria de maneira conspiratria, como se percebesse a confuso em que ela se encontrava. Duvidava que Anthony achasse graa se soubesse o que estava pensando sobre seu irmo.
	Por que no nos conta do que esto rindo, Anne?  O tom arrogante de Clia Diamond misturou-se a seus pensamentos.  No seria ruim um pouco de diverso  acrescentou, com frieza, demonstrando que no estava imune ao clima que se criara durante o jantar.
Anne olhou para Raphael como se lhe pedisse socorro, mas, conhecendo to pouco sua maneira de ser, desconfiava que ele adoraria assistir a seu embarao. Mas, em vez disso, para seu espanto, se apressou em ajud-la:
	Foi apenas uma histria de Jssica que Anne me contou. Por falar nisso, acho que  hora de minha prince-sinha ir dormir. Sem reclamaes, mocinha! Ter de estar muito descansada para me enfrentar amanh numa partida de xadrez.
Foi ento que Anne ficou sabendo que Jssica jogava. Uma criana to pequena conhecendo algo to complicado! De imediato, Anne se levantou para atender  sugesto de Raphael. Pelo jeito, a noite seria longa.
 Tomem o caf sem mim.  Raphael se levantou para erguer a filha no colo.  Quero conversar com Anne depois que Jssica estiver na cama.
No foi o fato de ele ter dispensado o caf o que a perturbava, nem mesmo a ideia de Raphael de juntar-se a elas, mas a meno de "conversar com Anne".
Sobre o que Raphael estaria querendo falar? A respeito do fato de ser a nova bab de sua filha? Ou alguma outra coisa?

CAPTULO III

As referncias so excelentes, Anne. Devem ter sentido muito, no jardim-de-infncia, por voc ter sado de l.
Era verdade. Brenda Thompson, a diretora do jardim-de-infncia, dizia isso claramente na carta de referncia.
Eles estavam no estdio de Raphael Diamond, uma sala espaosa, ao lado da biblioteca, mobiliada com pesados mveis de mogno. Era a primeira vez que Anne entrava l. Isso no era de surpreender: a Casa do Penhasco era enorme, ladeada por duas grandes alas. Numa delas viviam os criados, e a outra estava quase desocupada, e tinha dezenas de cmodos nos quais Anne nunca tinha estado.
Raphael despedira-se da filha na porta do quarto e dissera que esperaria Anne no estdio. Anne ficara para pr a menina na cama, mas, antes de sair, precisara perguntar a Jssca onde ficava o estdio de seu pai.
Quando sentara-se diante da mesa dele, fora como se os bons momentos compartilhados havia pouco no tivessem existido. Ela se sentira de volta ao orfanato sendo repreendida pela sra. James por uma traquinagem qualquer. "Fique de cabea baixa e longe dos problemas" era frase mais ouvida.
 Otimas referncias  Raphael repetiu, devagar. O fato de ter tirado o palet e soltado o n da gravata no o tornou mais acessvel.  Na verdade, quase no h nada aqui a seu respeito. Quem  voc? De onde  sua famlia? Tambm vai se demitir sem aviso prvio, como Margaret?
Tenho o direito de fazer essas perguntas. Afinal, voc est com minha filha todos os dias.
Arme faria o mesmo se a filha fosse dela. Ainda assim, no entanto, essas questes soavam como intruso. E ela no pretendia revelar mais coisas a seu respeito do que o necessrio.
	Meu nome  Anne Fletcher, e sou rf. No tenho famlia. E no sairei daqui, ou de perto de Jssica, sem ter um bom motivo ou com tempo para que a famlia encontre uma substituta.
Os lbios dele se curvaram num breve sorriso.
	Margaret me disse a mesma coisa.
Anne ergueu os ombros.
	Sobre Margaret nada posso dizer porque no a conheci. Quanto a mim, garanto que no agirei da mesma forma.
	E pegar ou largar, no?
	Eu no disse isso.  Anne sentiu o rosto corar.   claro que no  assim. O senhor  meu patro e tem todo o direito de exigir certas garantias. O que sei  que no gostaria de sair de perto de Jssica.
	Gosta da minha filha?
	Muito.
Uma pergunta sensata. Mas havia outras muito mais ofensivas que Raphael Diamond poderia fazer.
	E quanto aprecia meu irmo?
Aquela era uma delas! Anne estava esperando que Raphael fizesse a indagao desde que os trs se encontraram no corredor.
	Gosto de todos nesta casa  Anne respondeu de forma evasiva.
Os lbios de Raphael se estreitaram.
	At de Clia?
Clia era uma mulher arrogante e considerava Anne uma mera criada, mas ao menos era sincera e no fingia ser diferente. Alm disso, na maioria das vezes tratava-a muito bem.
	At dela, senhor.
	Eu acho que Clia  muito exigente.
	De modo algum  Anne protestou, indignada.  A sra. Diamond  muito gentil, a sua maneira.
No mesmo instante arrependeu-se de ter dito isso, pois sabia que tinha dado a Raphael uma abertura que no pretendia. E no precisou esperar muito tempo para constatar.
	A sua maneira... Conheo Clia desde que tenho dois anos de idade, e nunca a vi ser gentil com ningum. No sem uma boa razo, e as babs de minha filha no esto includas no seriam uma boa razo para ela.
Anne no estava interessada em suas opinies sobre Clia e no queria continuar esse assunto. Mas interessou-lhe, sim, pelo fato de Raphael afirmar conhecer a prpria me desde os dois anos de idade.
Raphael observava-a com muita ateno e percebeu sua curiosidade. Aquele homem no perdia nada, pelo visto.
	Voc sabe muito pouco sobre esta famlia, no, Anne?
Ela sabia que amava Jssica, que Clia cumpria seu papel de nobre dama  perfeio e que Anthony estava enrascado numa relao que no queria. O que mais precisava saber?
	Vou retomar a minha pergunta original, Anne: quanto voc gosta de Anthony?
No muito, claro. Porque at o ltimo fim de semana Anne no soubera que ele estava noivo. Antes, aparecera sozinho, quando ento ela descobrira que sua beleza era irresistvel. Fora um choque e uma decepo quando o vira chegar no sbado com Davina para passar a semana. Depois se beijaram no domingo... Portanto, no estava a par de muita coisa.
	No muito, senhor  Anne respondeu, com honestidade.
Raphael ainda a observava com um olhar astuto.
	Nesse caso, aconselho que fique longe dele.
Anne mostrava-se bastante calma, mas a fora das palavras de Raphael a fizeram tremer por dentro. Era evidente que os dois irmos no se davam bem. E Raphael, mais uma vez, falava com Anne como se fosse uma criana. Sentir atrao por um homem comprometido no era a melhor coisa que j fizera na vida, mas, como a prpria Jssica dissera, no era mais menina e podia responsabilizar-se pelos erros que cometia.
	Conselho de pai, sr. Diamond?  indagou com ironia.
Os lbios dele voltaram a se estreitar.
	Eu estava brincando quando disse a Jssica que voc parecia ter a idade dela. Tambm retiro o que falei na praia sobre ser uma jovem impressionvel  acrescentou, diante do ar contemplativo de Anne.   jovem, mas no  boba.
Anne prendeu a respirao, pois no tinha muita certeza disso.
De fato, nunca ouvira falar nada sobre a noiva de Anthony at o ltimo sbado, mas permitiu que ele a beijasse assim mesmo. No teria sido uma grande bobagem?
	Obrigada, senhor.
	Quanto a meu conselho, seja ele paternal ou no, acho melhor segui-lo.
Anne ficou indignada. Raphael chegara quela casa havia poucas horas e desde ento no tinha feito outra coisa seno delegar ordens e aborrecer as pessoas. Sobretudo ela! Mesmo que tivesse todo o direito de exigir o que quisesse no que dizia respeito a Jssica, dispensava sua interferncia em assuntos que s diziam respeito a si.
No entanto, a despeito disso, preferiu escolher com muito cuidado o que ia dizer.
	E muita gentileza sua, sr. Diamond.
	No sou mais gentil do que Clia  ele a interrompeu, brusco.  Nem Anthony, diga-se de passagem. Na verdade, ningum  gentil nesta famlia.
	Nesse caso, por que deixa...  Anne se deteve diante de sua expresso severa ao tentar ultrapassar a linha limtrofe do assunto Jssica. Apreensiva, ergueu a cabea quando Raphael se levantou da cadeira e pareceu preencher toda a sala com o seu tamanho.
	Nem jovem nem impressionvel  Raphael ponderou.  Pelo amor de Deus, tire do rosto esse olhar assustado!
Raphael deu a volta na mesa e parou ao lado dela.
	Posso no ser uma gentleman, Anne, mas jamais feri uma mulher na minha vida. E no pretendo comear por voc, mesmo que diga uma coisa terrvel. Deixo Jssica aqui porque no tenho onde deix-la. A me dela morreu  declarou, frio, sem revelar nenhum sentimento pela perda.  E no posso lev-la comigo quando estou trabalhando.
Anne entendia isso e sabia que Jssica tinha uma infncia mais feliz do que fora a sua. A me de Anne morrera pouco depois de dar  luz, e no tinha conhecido o pai. A nica coisa que sabia eram as circunstncias de seu nascimento. Quanto a Jssica, apesar de ter Raphael ausente, adorava-o.
Anne umedeceu os lbios.
	Desculpe-me, senhor, no pretendia fazer uma crtica.
	Pretendia, sim. E tenho de dizer que foi merecida.  Raphael ergueu o rosto de Anne com a ponta dos dedos e no lhe deu outra opo seno fit-lo direto nos olhos. Ele j no estava zangado, mas sorrindo.  Confio em voc, Anne Fletcher. Gosta de minha filha, e essa  a nica referncia que me interessa.
Anne tinha dificuldade de respirar ou de se mover com tanta proximidade. Seus olhos estavam presos nos dele, o rosto imobilizado pela mo, o calor dos dedos irradiando sob seu queixo.
Passou a lngua pelos lbios e enrubesceu ao perceber que Raphael seguia o movimento. No mesmo instante, se retraiu para desvencilhar-se dele. O que estava acontecendo, afinal? Se no era to jovem nem to impressionvel, por que sentia algo to forte por aquele homem como sentira por Anthony?
Era uma situao absurda. Os Diamond, apesar de serem educados, eram dotados de um poderoso magnetismo.
	Posso ir agora?  Anne queria que Raphael se afastasse e a deixasse ao menos respirar.
Por sorte, ele voltou para seu lugar.
	No. Ainda no falamos sobre o acidente de Jssica.
Essa era uma das razes por que Anne estava l. Como tinha se esquecido disso? Por causa dele,  claro. No era fcil lidar com tantas alteraes de humor e de assuntos. Mas Anne sabia que devia estar atenta ao que viesse pela frente.
E o assunto sobre o acidente da menina foi um deles. Anne no sabia como tinha acontecido. A menina estava na sela num momento e, no instante seguinte, cara ao cho. Anne no sabia cavalgar, apenas conseguia manter-se na sela. Assim, no tinha experincia para dizer o que acontecera.
Isso, decerto, seria um ponto a menos no julgamento de Raphael.
	No falamos sobre andar a cavalo quando estive aqui para a entrevista. Anne tomou uma atitude defensiva.
 Mas como Jssica gosta muito de montar e no pode sair sozinha...
	...voc a acompanhou. J tinha cavalgado antes, Anne?
Droga! Ele estava se divertindo a sua custa outra vez.
	No havia muito interesse nisso no orfanato em que fui criada, senhor.
O forte contraste entre sua prpria infncia e a de Jssica ficou evidente na resposta rude. O orfanato nunca tivera dinheiro sobrando, e muito menos para aulas de equitao. Mesmo que Anne quisesse aprender, coisa que nunca quis.
E, depois do acidente de Jssica, a ltima coisa que desejava era montar outra vez. A menina, que parecia ter nascido sobre um cavalo, assim mesmo conseguiu ser derrubada.
A expresso de Raphael tornou-se mais suave.
	Veja, Anne, eu no tomaria os Diamond como uma famlia exemplar. Havia uma certa-normalidade antes de meu pai morrer, seis anos atrs. Depois, tudo virou uma anarquia. Somos apenas um grupo de pessoas que por acaso vive na mesma casa, mas que no se suporta.
	 mesmo?  Anne se sentiu consternada.
Mas no tinha presenciado havia pouco a frgil civilidade durante o jantar? Ao mesmo tempo, achava que Raphael fosse o catalisador. Afinal, nas noites anteriores no notara tanta tenso.
	, sim, Anne. E, como nunca lhe contaram a histria da famlia, eu contarei.
Anne no sabia se queria ouvir, pois j se sentia incomodada com o pouco que conhecia.
	 importante para Jssica que eu saiba, senhor?
	Antes deste fim de semana eu diria que no. Agora, no tenho mais tanta certeza.  Seu rosto ganhou uma expresso triste, mas logo em seguida ele sorriu.  No precisa ficar preocupada. No h nenhum caso de morte a machadadas ou de assassinos seriais na famlia. Pelo menos nada que Clia tenha se permitido comentar. A aparncia  o que mais importa para minha querida madrasta. Embora ela no costume ser to especfica  ele completou com frieza, deixando transparecer um brilho de dio no olhar.
	Madrasta!
Depois de alguns momentos, por fim Anne conseguiu entender. Raphael e Anthony eram meios-irmos, o que explicava o fato de um ser loiro e o outro moreno e terem to poucas caractersticas comuns. Eram ambos muito bonitos, sem dvida, mas completamente diferentes. Tambm explicava a falta de afeto entre Raphael e Clia. Mesmo que Raphael fosse quase um beb quando Clia se casara com o pai dele.
Raphael continuou:
	Isso mesmo, eu tinha acabado de fazer dois anos quando minha me morreu. E Clia, que na poca era secretria de meu pai, logo tratou de compensar essa perda. E trabalhou to bem que Anthony nasceu seis meses depois que eles se casaram! No estou julgando ningum, Anne.  Notou que ela franziu a testa.  S acho uma falta de respeito com minha me.
O cenho franzido no era por achar que ele estava julgando Clia e o pai. Isso j no importava, com tantas crianas nascidas de relacionamentos ilegais. Sua estranheza se deu pela rapidez com que David Diamond se casara depois da morte da mulher, e no por ter se casado.
	Isso no quer dizer que seu pai no tenha sentido a morte de sua me. As vezes, quando se ama demais uma pessoa, perde-se uma parte de si mesmo, e encontrar algum para amar  a nica maneira de sentir-se inteiro outra vez.
Raphael olhou-a com ateno, balanando de leve a cabea, como que surpreso com sua perspiccia.
	Voc  muito sbia para uma pessoa to jovem, Anne.
Papai me disse qualquer coisa assim quando o questionei sobre isso. Porm, ele logo percebeu o grande erro que cometeu ao escolher amar Clia.
Em geral, era isso o que acontecia, mas, naquele caso, havia o bem-estar de um menino em jogo. E o casamento sobreviveu. E, a julgar pela amargura de Raphael, no tinha sido muito feliz.
Portanto, ele fora criado por uma madrasta de quem no gostava e crescera ao lado de um meio-irmo a quem desprezava.
Durante muitos anos, Anne desejou ter uma famlia e que sua me no tivesse morrido to cedo. Mas se a famlia Diamond fosse tomada como exemplo...
	Por isso, aconselho-a a no tomar esta famlia como tpica  Raphael aconselhou-a, como se mais uma vez lesse seus pensamentos.  Ainda quer continuar cuidando de Jssica?
	Mais do que nunca  respondeu, sem hesitar.  Sinto muito pelo acidente que ela sofreu. Jessy estava na sela e, um segundo depois, as duas estavam no cho, e Jessy chorava.
	As duas?!
	Ela e a sela. Jssica no lhe contou que a sela tambm caiu?
	No. Quem foi que selou o cavalo?
	James, eu acho...
Pela expresso de Raphael, Anne achou que poderia criar problemas para o pobre homem que cuidava dos estbulos da famlia.
Jssica gostava muito de James e sempre conseguia extrair um sorriso de seu rosto enrugado. Talvez por isso no tivesse contado ao pai que a sela cara junto com ela.
	A correia que passa pela barriga do cavalo se soltou.
James nada poderia ter feito para impedir.  Anne tentava proteg-lo.
Rahael respirou fundo, os dentes cerrados.
	 provvel que no.  Mas estava disposto a investigar esse detalhe.
Anne procurou ao redor alguma coisa para aliviar a tenso que se criou e encontrou um tabuleiro de xadrez montado sobre uma mesinha no canto da sala.
	Eu no sabia que Jssica jogava.  Referia-se ao convite que Raphael tinha feito  filha para a manh seguinte.
 Ela  muito nova para jogar um jogo to complexo.
	Ensinei-a quando tinha cinco anos. Joga muito bem, mas ainda no conseguiu me vencer.
Anne tinha dvidas de que algum conseguisse venc-lo em qualquer circunstncia.
	Ainda, senhor. Conheo muito bem a determinao de Jssica.
Ele riu baixinho.
	Herana do pai, no acha?
	No sei, no.  Anne fingiu-se inocente. Seus olhos brilhavam, os lbios se curvaram num sorriso.
Raphael riu.
	Aposto que no sabe mesmo! Voc...  Ele parou de falar quando a porta se abriu atrs de Anne.  O que quer aqui? No sabe que se costuma bater antes de entrar?
Anne virou-se e viu Anthony, impassvel. E, por seu olhar acusador, presumiu que os ouvira rindo dentro do estdio. Mas no sentiu nenhuma culpa por isso. Raphael era seu patro, e Anthony estava noivo de outra moa.
	Acabei de passar pelo quarto de Jessy, Raphael. Ela no est conseguindo dormir porque o tornozelo di. Eu dei o comprimido que o mdico receitou, mas acho que s est querendo voc l.  Anthony encarava o irmo.
Anne, que j se dirigia para o quarto, parou ao ouvir a ltima frase, e voltou-se para Raphael.
	Estou indo, senhor. J terminamos nossa conversa, no ?
Anthony no deu a menor importncia. Em vez disso, riu. como se o mau humor do momento anterior tivesse evaporado.
	O que posso fazer se sua filha te ama?
Raphael atravessou o estdio com passos firmes, deixando ainda mais evidentes as diferenas entre os dois. O belo corpo de Anthony era estruturado nas academias de ginstica, ao passo que o estilo de vida de Raphael mantinha-o em excelente forma. Seu jeito irnico parecia dizer que no tinha tempo para os luxos de academia e que a prpria batalha da vida o fortalecia fsica e emocionalmente.
	Pelo menos sou amado por algum  murmurou ao passar por Anthony.  Diga-me, Anne, voc joga xadrez?
Ela se surpreendeu com a pergunta inesperada.
	Sim, senhor.
	Foi o que pensei. Bem, vamos jogar uma noite dessas. Mas devo avisar que nunca deixo ningum ganhar de mim!
Algo lhe dizia que isso se referia a vrios aspectos da vida de Raphael. Ele era um homem que no dava espao a quem quer que fosse, nem a si mesmo.
	Em nenhum momento achei que deixaria, senhor.
	Otimo.  Saindo do estdio, ele fez uma pausa.  Ah, Anne...
	Sim?
	Voc fica muito bem nesse vestido preto - disse num tom grave, com um brilho de triunfo nos olhos ao v-la enrubescer.
Anne sabia que fizera aquele comentrio de propsito. Jssica no tinha dito que ela estava bonita, e sim que era mais velha. E tambm sabia, pela clara irritao de Anthony, que a provocao de Raphael tinha atingido o alvo.
Era inacreditvel. Eles pareciam dois garotos querendo vencer um ao outro. S que tal atitude em homens de mais de trinta anos de idade era absurda e destrutiva.
Anthony ficou srio e dirigiu-se a Anne num tom acusador:
	Parece que voc e Raphael se do muito bem.
	Ele quer que eu continue trabalhando com Jssica.  Anne no desejava pr mais lenha na fogueira. Preferia manter-se bem longe daquela guerra pessoal.
	Isso  timo, no? Para ns, quero dizer. Teremos mais tempo para nos conhecer.
Anne fitou-o e mais uma vez sentiu uma leve vertigem diante de tanta beleza.
	Talvez, Anthony.
Ele passou o brao pela cintura delgada e atraiu-a para si.
	Algum pode nos ver, Anthony!
	E da? Minha me e Davina esto envolvidas numa profunda discusso sobre um assunto qualquer, bastante aborrecido. Prefiro estar aqui com voc.
Mas Davina era a noiva dele. Aquilo no estava certo. Anne tentou se desvencilhar de seus braos, de maneira delicada, mas firme.
	Anthony...
	Ah, pare com isso!  Ele a empurrou ao perceber que Anne resistia.  Voc no me pareceu to exigente quando a beijei no domingo. Ou ser que depois de conhecer meu irmo achou a perspectiva mais interessante?
Anne levou um susto com esse comentrio. No estava se referindo ao beijo que acontecera entre eles. Apenas se sentia culpada desde ento, depois que soubera de seu noivado. E decerto no tinha nenhum interesse romntico por Raphael Diamond. Seria loucura de sua parte, muito mais do que estar atrada por Anthony.
	Desculpe-me, Anne.  Ele tentou se retratar no mesmo instante, ao perceber as lgrimas nos olhos dela, e tornou a abra-la.  Fiquei com cime. Voc me perdoa?
Como resistir quele olhar de menino?
	 claro que o perdoo. Raphael  meu patro, e nada mais.
	Fico feliz com isso, porque detestaria que ele a magoasse s por ter velhas contas a acertar comigo.
Anne olhou para Anthony, preocupada. Estaria se referindo ao casamento de Clia com David e a seu nascimento logo em seguida?
: Sabe, Anne, eu conheci Joana primeiro, a mulher de Raphael.  Anthony resolveu explicar ao perceber a confuso dela.  Foi quando estivemos em Londres, no tempo de faculdade, e tivemos um.... relacionamento, digamos assim. Mas tudo terminou quando voltei para c. Pelo menos de minha parte. No entanto, Joana estava levando nossa relao mais a srio do que eu, e veio atrs de mim. Quando consegui convenc-la de que no estava interessado, ela comeou a olhar para Raphael. Tenho certeza de que no comeo foi s para me provocar. Porm, no conseguiu. Mas parece que minha atitude s serviu para fazer Joana insistir mais ainda em Raphael e, quando me dei conta, eles estavam casados. E o presente de casamento que Joana deu a ele foi lhe contar que tinha sido minha amante!
Diante de tanta crueldade, Anne no se surpreendeu com a animosidade existente entre os dois. Raphael era um homem que detestaria saber que sua mulher fora amante de seu irmo antes de se casarem.
 Eu no contei sobre nosso relacionamento a Raphael porque no achei que estivesse to interessado nela. E acho que ele nunca me perdoou por isso.
Mas o casamento sobreviveu, e Jssica foi o fruto daquela relao. Caso contrrio, Anne no estaria ali.
Ela escolhera trabalhar com aquela famlia por livre e espontnea vontade, mas nunca pudera imaginar que os Diamond pudessem ser to complicados. Primeiro, morrera a mulher de David Diamond; depois, Clia se tornara a cruel madrasta de Raphael. Como se no bastasse, ele se casara com uma mulher que jamais poderia faz-lo feliz e, por ltimo, ela morrera.
Ser que uma daquelas mulheres teria cometido suicdio naquela enseada rochosa aos ps da Casa do Rochedo? Se fosse o caso, qual delas teria sido?

CAPITULO IV

Como foi sua entrevista com meu en teado ontem  noite?  Clia Diamond levantou-se para servir o ch que acabara de ser deixado em sua saleta particular.
Anne atendeu ao convite de juntar-se a ela no desjejum, no sem certa insegurana. Mas, como Jssica estava com o pai no estdio, jogando a prometida partida de xadrez, no tinha nenhuma desculpa para recusar.
Escolheu com cuidado as palavras, embora no tivesse muita certeza se sua conversa com Raphael ter sido um sucesso ou no.
	Parece que o sr. Diamond ficou satisfeito com minhas referncias.
	Ento voc vai ficar?
Anne deu um profundo suspiro.
	Parece que sim  respondeu devagar.
	Otimo.  Clia bebeu seu caf, pensativa, satisfeita com a resposta.  Acho que Raphael no ficar aqui por muito tempo. Ele no fica nunca, afinal.
Anne queria com sinceridade que ele ficasse, por causa de Jssica. Mas era possvel entender por que suas visitas eram to rpidas: a tenso que se criara naquela casa, desde de sua chegada, no dia anterior, parecia tangvel, quase podia ser tocada com as mos.
	 bom que voc continue conosco, Anne. Davina e eu conversamos ontem  noite sobre o casamento dela e Anthony. Ser muito mais fcil para ns se no tivermos de nos preocupar com Jssica.
	Casamento?  Anne repetiu, distrada.
Seria esse o "assunto aborrecido" ao qual Anthony se referira na vspera? Era bastante provvel.
	Ser logo depois do Natal.  Clia, muito tranquila, estava alheia s preocupaes de Anne.  E, como ser em Londres, exigir muitos preparativos. O maior problema  a recepo, porque temos pouco tempo para planej-la.
Alm disso... bem, no interessa a voc. S quero me assegurar de que estar aqui para cuidar de Jssica.
Seria s isso o que Clia estava querendo? J fazia algum tempo que Anne andava buscando significados ocultos em tudo o que ouvia. Antes, as coisas que os Diamond diziam era exatamente o que ela ouvia. Agora, no entanto, procurava duplo sentido em todas as frases. Culpa de Raphael,  claro. Clia no podia saber da atrao que ela sentia por Anthony. Ou ser que sabia?
"Pare com isso!", Anne disse a si mesma. "Voc j est fazendo outra vez. Pobre Anthony... Est sendo pressionado de todos os lados a realizar esse casamento!"
Ao fim do caf, terminou tambm a conversa. Clia pediu licena para cuidar dos arranjos de flores, pois receberia convidados para jantar.
Ao sair da saleta atrs de Clia, Anne encontrou Anthony descendo a escada. Quando se separaram na noite anterior, no escritrio de Raphael, Anthony a beijara e depois fora se juntar a Clia e Davina, me e noiva, para discutirem a cerimnia, que aconteceria em poucos meses. Dizer que Anne estava confusa era pouco.
Anthony olhou para ela como que procurando alguma coisa.
Algum problema?  perguntou ao perceber sua confuso.
Sim: ele ia se casar no Natal, em questo de meses, e na vspera a beijara outra vez. E claro que tinha algo errado! O fato  que Anne estava to perdida em relao a esse assunto quanto estivera naquele ancoradouro.
	Anthony, ns precisamos conversar. Sua me acabou de me dizer...
	Sobre o casamento! No se preocupe, Anne, no vai acontecer.
Ela ergueu a cabea. Seria por sua causa? Como podia ser responsvel por isso se nem conseguia definir os prprios sentimentos desde a chegada de Raphael?
	E quando pretende dizer isso a Davina? Quando estiver no altar?
	Esse assunto s interessa a mim  ele retrucou, ressentido.
No, de maneira nenhuma era por sua causa que Anthony no ia se casar. Agora estava bem mais claro o que havia por trs da beleza e do charme que a cegavam. Existia um brilho de raiva, uma frieza to grande que...
	Ei, pare de me olhar desse jeito, Anne!  brincou, e, no mesmo instante, a crueldade e a fleuma deram lugar a uma meiguice bem mais sedutora.  No estou bravo com voc. Acontece que fico cansado com essa situao. Vamos, d-me um sorriso.
	Eu...
	Problemas no paraso?  Mais uma vez aquela voz, que se tornava mais familiar a cada dia.
Anne viu Raphael se aproximando deles com um sorriso irnico nos lbios bem delineados. A camisa de seda preta e a cala esporte, os cabelos negros, longos e despenteados, os olhos brilhando deixavam-no mais perigoso ainda.
Eles j tinha se encontrado, quando Raphael fora buscar Jssica no quarto para o jogo. Anne o vira de uma maneira diferente por saber como tinha sido seu casamento com Joana. Era evidente que a arrogncia era uma parte importante de sua personalidade. Qual no teria sido sua decepo quando soubera que sua mulher j tinha sido amante de Anthony?
Raphael fitou-a primeiro, a sobrancelha erguida numa indagao silenciosa, a qual Anne no sabia responder. Para ser franca, desejava no ter conhecimento de sua vida e que Anthony no tivesse lhe contado nada. Raphael ganhara uma vulnerabilidade que jamais poderia ser associada a ele.
A expresso de Raphael endureceu ao voltar-se para o irmo.
	Voc devia ter nascido cem anos atrs, Anthony. O fascnio que exerce sobre os membros femininos desta casa... sem querer ofend-la, Anne. Isso podia ser compreensvel h um sculo, mas no aceitvel.
	Ao menos sei apreciar uma bela mulher  Anthony devolveu o insulto.
Raphael permaneceu indiferente  clara retaliao.
	Voc est comprometido com uma moa muito bonita. Sugiro que fique com ela.  Raphael pegou com firmeza o brao de Anne.  E deixe em paz pessoas inocentes.
Anne sentia-se como um osso disputado por dois cachorros famintos. Alm disso, gostaria de no ser tratada como criana.
	O senhor me conhece muito pouco para afirmar isso a meu respeito.  Ela soltou-se de sua mo, enfrentando-o.
	Quer dizer que no  inocente?
Nesse momento, os dois se envolveram numa batalha silenciosa, como se no houvesse mais ningum presente.
Anne no se considerava tola, nem to pura, pois j tivera alguns namorados, mas no sentido real da palavra, da forma como Raphael se referia...
	Anthony, querido!  Era Davina Adams, que vinha descendo as escadas, linda, elegante, no auge de vinte e oito anos.
	J estou melhor da dor de cabea. Podemos ir  cidade.
No sbado anterior, quando Anne conhecera Davina, no imaginara que por trs de tanto charme existisse uma pessoa to superficial. Era muito bonita, sem dvida, mas seus nicos interesses eram fazer compras e cuidar da aparncia.
	timo.  Anthony sorriu.  Vocs nos do licena? Ele ofereceu o brao a sua noiva, e os dois se afastaram. 
	Quando Davina diz "salte", Anthony salta  Raphael comentou, mordaz.
O que ele queria dizer com isso?
	Mas Davina  muito bonita, no acha, Anne?
	Claro.
	E rica.
	Sim...
	No  segredo nenhum que meu irmo j gastou quase toda sua herana e que tem gostos muito caros. E todo o mundo sabe que Davina  uma moa riqussima.
	Menos eu?
	No estamos falando de voc, Anne. Ou estamos?
Aquele homem era de fato um reprter muito bom. Conseguia informaes sem pedir, a ponto de faz-la confirmar, sem dizer uma s palavra, seu interesse por Anthony. Mas ser que Anne estava mesmo to interessada? No saberia dizer.
	No, sr. Diamond  respondeu, seca.  Posso ir ver Jssica agora? O senhor deve ter coisas a fazer.
	Tenho.  Porm, continuou olhando-a com ateno.
 Vou levar vocs para almoar. As duas. A pedido de Jssica  acrescentou, como se pressentisse a recusa.
Teria sido um ato instintivo, porque a vontade de Anne era ficar o menor tempo possvel ao lado de Raphael Diamond. Mas, quando ouviu o nome de Jssica, no pde se esquivar.
	Est bem. Vou pegar um casaco para Jssica.  Anne se virou para subir a escada.
	Anne?
Ela j estava quase no alto, procurando fugir daquela batalha emocional. Raphael Diamond no era um homem fcil. Muito pelo contrrio. Era preciso estar sempre em guarda quando ele estava por perto.
Anne respirou fundo e virou-se devagar. Ele estava no mesmo lugar, sempre to poderoso.
	Sim, senhor?
Raphael sorriu.
	Irei at a jaula da leoa: avisarei a Clia que no almoaremos aqui.
	Est certo, senhor.
	Anne?
Ela tornou a se virar, impaciente. Raphael estaria fazendo de propsito? Alguma coisa naqueles olhos azuis pareciam lhe dizer que sim.
	Sim, senhor.
O sorriso dele ampliou-se, aprofundando as linhas de expresso nos cantos da boca.
	No precisa mudar de roupa. Est muito bem assim.
E trate-me por Raphael.  uma ordem.
Anne teve a ntida impresso de que estava sendo observada enquanto subia os degraus. Ento, se lembrou de que usava uma cala justa que realava seus quadris e as pernas longas e bem torneadas.
Eu no ia me trocar  respondeu, irritada, conseguindo, enfim, livrar-se dele, mas ainda ouvindo sua risada, que a perseguia pelo corredor.
E agora iria passar algumas horas na companhia daquele homem. Maravilhoso! Anne j se arrependia de ter desejado que Raphael ficasse mais tempo em casa daquela vez. Queria que ele fosse logo embora.
No entanto, arrependeu-se outra vez ao presenciar a alegria de Jssica na presena do pai. A menina o adorava, e sua afeio era retribuda na mesma intensidade. Seu casamento fracassara, mas Raphael Diamond no permitira que nenhum sentimento amargo que pudesse nutrir por Joana atingisse a filha, a quem amava de todo o corao.
Anne sentiu-se excluda desse relacionamento e at dispensvel, porque Jssica recorria ao pai para tudo o que necessitava.
	De repente voc ficou triste  Raphael interrompeu seus devaneios, outro sinal de que a observava sem que ela percebesse.  Espero no ter dito nada que a ofendesse.
Raphael arqueou uma sobrancelha naquele seu jeito desconcertante.
Eles deram um passeio antes de parar para comer um lanche. Jssica sentia-se muito  vontade, pois era visvel sua felicidade.
Anne, ento, pensou que, se Raphael resolvesse ficar em casa para sempre, poderia ser facilmente dispensada. Ao mesmo tempo, culpou-se por seu egosmo, pois seria muito melhor para Jssica ter seu pai do que ser cuidada por outra pessoa.
	No, Raphael. Est tudo bem. Voc no disse nada que me entristecesse.
Raphael insistiu:
	Tem certeza?
	Tenho.  Anne sorriu.
Ele no tinha culpa nenhuma por ela gostar tanto de Jssica. Era a ideia de separar-se da menina que a fazia sofrer.
	Algum j lhe disse que voc tem olhos muito expressivos, Anne?
Ela levou um susto e, de repente, quando os olhares se cruzaram e ficaram presos um ao outro, sentiu que eram as duas nicas pessoas no salo repleto.
	So incrveis!  Raphael murmurou, balanando a cabea, encantado.
	Achei que tivesse dito "expressivos".
	Expressivos! Belos! Encantadores... Deus me livre...
	Vov disse que s devemos usar o nome de Deus quando rezamos  Jssica o reprovou e os fez lembrar que estava presente.  E voc no est rezando, papai.
Raphael sorriu e acariciou os cabelos da filha.
	De certa forma, era o que eu estava fazendo, sim, querida.  Raphael encarou Anne de uma forma enigmtica.
Anne no sabia mais o que pensar daquele homem singular. Havia pouco, Raphael comentara sobre seu silncio. Agora, falava de seus olhos? Anne no conseguia ver a ligao entre uma coisa e outra.
	Tambm rezei ontem  noite, papai. Pedi para que no fosse embora nunca mais. Por que voc estava rezando?  a menina quis saber, inocente, alheia ao efeito devastador que suas palavras provocaram nos dois adultos.
Anne ficou encabulada, de repente, e perguntou-se como Raphael se sentiria por terem esquecido por instantes de sua filha.
	Rezei pela mesma coisa, meu amor.
Jssica assentiu, como uma menina amadurecida.
	Acho que, se ns dois rezarmos pela mesma coisa, ela pode acontecer. Durante muito tempo pedi para ter uma nova me, e no fui atendida.  Jssica franziu o nariz, sem ter a menor ideia da bomba que tinha jogado no meio da conversa.  O que acha, papai?
Anne teve vontade de rir da expresso assustada de Raphael. Pelo jeito, nunca lhe ocorrera que a filha queria tanto ter uma me, e no sabia o que responder.
Ento, Anne decidiu ajud-lo.
	Jssica, me acompanha ao toalete? Vamos mostrar a seu pai que voc j sabe andar de muletas  acrescentou, para encoraj-la.
Isso conseguiu desvi-la de um assunto que, no mnimo, deixava Raphael incomodado.
Ele ainda estava assustado quando Anne levantou-se para ir ao banheiro.
	De onde foi que voc veio?  Raphael perguntou, em voz baixa, antes de ela se afastar.
Anne voltou-se com um sorriso solidrio.
	Essa  uma das razes por que gosto tanto de cuidar de crianas, Raphael: nunca se sabe o que elas vo dizer!
	Uma nova me!  ele repetiu, incrdulo.
O sorriso de Anne se alargou.
	Eu no me preocuparia com isso. Jssica j deve ter desistido de esperar.
	Graas a Deus!  Respirou, aliviado, e sorveu um gole generoso de cerveja.
O sorriso desapareceu do rosto de Anne quando seguiu atrs de Jssica. Esquecera-se de que o casamento dele com Joana tinha sido um desastre. No era de admirar que no via nenhuma graa numa substituio. No era uma experincia que Raphael gostaria de repetir, e ningum poderia culp-lo por isso.
Raphael parecia mergulhado em pensamentos ao voltar para casa, dirigindo o Mercedes preto como um autmato. Jssica, cansada do passeio, logo adormeceu no banco de trs.
Anne aproveitou o silncio para pensar melhor na ltima conversa que tivera com Anthony, que de manh lhe parecera muito diferente. Decerto no gostara do que ela dissera sobre o casamento. O que iria acontecer? Ser que Anthony pretendia mesmo se casar? Dizia que no, mas...
	Ele no vale nada  Raphael interrompeu suas reflexes como se soubesse em que, ou em quem, ela estava pensando. Alis, isso parecia estar se tornando uma rotina.
Anne sentiu-se enrubescer.
	No sei do que est falando.
Raphael suspirou.
	Sabe, sim. No entendo como Anthony consegue, mas toda mulher que se aproxima dele  seduzida por seu charme, apesar de ser quem ! No acredite no que Anthony lhe disser, Anne, porque vai se casar com Davina. Clia far tudo para isso.
	Por qu?  Anne perguntou, perplexa.
	J lhe expliquei as razes.
Porque Davina era rica e Anthony tinha gostos caros. Essa no parecia ser uma boa base para um casamento. E no era da conta de Clia com quem seu filho se casaria. Seria melhor para todos que ela aprovasse a escolha de Anthony, mas era muito mais importante que o prprio Anthony escolhesse com quem se unir.
	No entendo, Raphael.
	Voc vai entender  garantiu-lhe.  S estou que rendo facilitar as coisas para voc. Ou ser tarde demais?
Anne no saberia dizer. Sim, fora enfeitiada pelo charme de Anthony desde o incio e sentia-se envaidecida por ter atrado sua ateno. Mas a chegada de Davina no ltimo fim de semana destrura tudo. Agora j no sabia mais o que pensar.
	Espero, com sinceridade, que no, Anne  Raphael continuou.  Meu irmo j arruinou a vida de muita gente, e voc no precisa ser mais uma.
E a primeira de todas tinha sido a dele. Mas a culpa no era de Anthony. Ou ser que era? Anne j no sabia mais o que pensar, precisava dar um tempo, trabalhar melhor as coisas em sua cabea.
Mas no houve tempo para isso quando chegaram. Anne e Jssica jantaram no quarto de brinquedos, porque os donos da casa receberiam convidados. E Anne, por sua vez, no viu mais Anthony. Melhor assim: precisava de um tempo para si mesma antes de tornar a encontr-lo.
Para sua surpresa, Clia ainda estava em seu quarto quando chegou a hora de Jssica dizer boa-noite  av. As duas a encontraram no closet escolhendo a roupa que iria usar. J estava penteada e maquiada, faltava apenas se vestir. No momento usava um robe. Era de admirar que no tivesse se casado outra vez aps seis anos de viuvez, pois ainda era uma mulher muito atraente.
	Pronta para dormir, querida?  Clia saudou a neta, vendo-a j de pijama.  E to tarde assim?
Anne observava-a enquanto Clia se despedia de Jssica.
Havia sinais de cansao em seus olhos e ao redor da boca, apesar de Clia ter repousado antes do jantar. O fato de ter Anthony e Davina presentes, alm do perturbador Raphael, era estressante para a pobre mulher. Apenas Jssica, e talvez a superficial Davina, no pareciam afetadas por aquela estranha reunio familiar.
	O que vai fazer esta noite?
De repente Anne se deu conta de que a pergunta de Clia era dirigida a ela. Depois que pusesse Jssica na cama, o que iria fazer? Sua rotina tinha sido afetada com a presena de toda a famlia.
	Preciso pregar algumas etiquetas no uniforme escolar de Jssica  inventou.  Depois vou escolher um livro na biblioteca. Tudo bem?
Anne encantara-se com a biblioteca dos Diamond desde o primeiro dia. Sempre gostara de ler, e o grande aposento, no andar inferior da casa, era todo dedicado  literatura. Para ela, era a prpria caverna de Aladim. Era como se sua vida ficasse muito mais simples quando se entregava  leitura da vida de outras pessoas.
Clia sorriu.
	Excelente ideia, Anne! Fique  vontade para escolher o livro que quiser.
Anne observou-a com mais ateno. Por alguma razo, Clia estava muito mais simptica desde a chegada de Ra-phael. Talvez fosse o esforo de conviver com ele sob o mesmo teto, ou o fato de Anne conhec-la melhor agora, o que operara essa transformao.
	Obrigada.
	Agora preciso terminar de me vestir.  Clia levantou-se para dispens-las, acariciando a cabea da neta.  Tenho de escolher com cuidado, porque a me de Davina dever estar usando trajes muito elegantes. Ela est sempre muito bem vestida.
A me de Davina... Eram os pais dela os convidados para o jantar! Decerto estariam ali para conversar sobre o casamento.
Anne ps Jssica na cama como um autmato e costurou as etiquetas com as iniciais da menina no novo uniforme de inverno, sem notar que fazia uma tarefa entediante. Depois, foi para a biblioteca, sem saber dizer como chegou l, lembrando-se de que os pais de Davina estavam na sala ao lado. Os planos de casamento estavam includos no cardpio da noite, isso era bvio.
Como ficava Anne em tal situao? Talvez Raphael tivesse razo. Devia ser apenas mais uma das inmeras namoradas que Anthony tivera na vida. Era bem provvel que ele estivesse brincando com suas emoes enquanto pretendia casar-se com Davina. Por isso ficara to perturbado pela manh, ao ser questionado.
Que confuso! Anne ficou to feliz por ter conseguido o emprego naquela casa, adorava estar com Jssica, e agora, por causa de um envolvimento com Anthony que jamais deveria ter comeado, tinha posto tudo a perder. Como poderia permanecer na manso depois de ter cometido a tolice de envolver-se com Anthony? Mesmo assim, no queria sair. Teve certeza disso quando notou que a volta de Raphael dispensaria sua presena ao lado de Jssica.
Anne comeou a chorar baixinho, sem saber muito bem por que ou por quem. Estava tudo muito confuso em sua cabea. A nica coisa que sabia era que sua relao com Anthony, fosse o que fosse, devia terminar.
Era preciso pr um fim em algo que nunca comeara, a no ser em sua ingnua cabea. Raphael tinha razo: era imatura e impressionvel.
	Eu disse que ele no vale a pena.
Anne virou-se e deu de frente com o homem em quem acabara de pensar. Raphael entrou na biblioteca, fechando a porta atrs de si. Estava impressionante em seu smoking preto e a camisa branca como a neve.
	No vale a pena sofrer por ele, Anne  enfatizou,
cruzando a sala com passos firmes.  Pare de chorar, droga!
Anne se deu conta da bobagem que fazia e chorou ainda mais. Acreditara com sinceridade no interesse de Anthony, comeou a apaixonar-se, e agora sentia-se uma tola.
	Anne!  Raphael sacudiu-a pelos braos.  Droga!  A voz ergueu-se quando ele viu as lgrimas escorrendo pelo rosto bonito.
Anne queria muito parar com aquilo, mas o fato de Raphael presenciar sua humilhao piorava tudo. Ele era seu patro. O que iria pensar a seu respeito? Que era uma idiota que se envolvia com um homem que no valia a pena? Talvez a despedisse por isso.
Com a voz entrecortada por soluos, Anne lembrou-o, tentando aliviar a tenso:
	Jssica no gosta que fale assim.
Isso s serviu para aumentar a fria de Raphael.
	Pouco me importa Jssica e pouco me importa Anthony!  Suas mos apertavam os braos dela.  No quero nem saber!  Baixou a cabea em busca da boca de Anne, cheio de paixo.
Anne foi pega de surpresa de tal forma que nada pde fazer seno ficar presa pela fora de seus braos, enquanto aqueles lbios exigentes perseguiam os seus, implacveis. Ela j beijara antes, havia pouco at, mas nunca daquela maneira.
Ento, a clera pareceu abandonar Raphael. Afrouxou o abrao e, com ternura, aproximou-a ainda mais, os lbios provando e deliciando-se com os dela. Aos poucos, com a pulsao descompassada, Anne comeou a retribuir as carcias, passando as mos bem devagar pelos ombros dele enquanto ficava na ponta dos ps para beij-lo.
Raphael aceitou o convite, curvando o corpo de Anne junto ao seu, os lbios roando os dela com erotismo, a lngua penetrando com suavidade por entre eles e provocando um calor que a inundava por inteiro.
Anne sentia a pele toda formigar, vibrando de desejo, querendo que o prazer no terminasse nunca.
Mas foi interrompido de repente, quando Raphael a afastou, os olhos to sombrios que se tornaram negros outra vez.
	Voc no est apaixonada por Anthony, Anne. Na verdade, no ama ningum. No teria me beijado assim se estivesse envolvida. Ento, pare com esse choro e volte a cumprir seu dever: cuidar de Jssica!  Raphael deu-lhe as costas e saiu batendo a porta.
Anne ficou parada, olhando se afastar, ainda mais confusa. Na verdade, desesperada.

CAPITULO V

	O que est acontecendo entre Raphael e voc?!
Anne descia a escada com uma bandeja nas mos e no tinha encontrado Anthony desde o dia anterior. Na verdade, ainda no tinha visto ningum da famlia, com exceo de Jssica, e no sabia como enfrentaria Raphael depois do que acontecera entre eles na vspera.
Olhou para Anthony com um ar assustado. Ele no podia saber que Raphael a beijara. Mais que isso: que ela retribura a seus beijos.
	O que quer dizer com isso, Anthony?  perguntou, apreensiva, mantendo a bandeja firme entre os dois.
	Largue essa droga!  ele exigiu, impaciente, e, sem esperar que ela'o obedecesse, arrancou a bandeja de suas mos e colocou-a com violncia sobre a grande mesa do hall, fazendo com que uma das xcaras esparramasse seu contedo pelo cho.
	Raphael acaba de me informar que vocs iro passar alguns dias em Londres.
	Ele disse?!
	Disse! E ento? O que est havendo?
Anne tambm gostaria de saber. Era a primeira vez que estava ouvindo aquela histria de viagem. Claro que no havia nada de estranho no fato de a bab viajar com a famlia, mas, em se tratando de Raphael Diamond e do que acontecera na noite anterior, no deixava de ser espantoso. Bem, no era a nica coisa estranha que estava acontecendo.
Anne!  Anthony esperava uma resposta.
E ela no tinha nada a dizer. No sabia por que estavam indo a Londres, nem por quanto tempo. Na verdade, no sabia nada.
	Tem certeza de que vou tambm, Anthony?
	Tenho.
E, conhecendo Raphael, Anne concluiu que devia ter adorado dizer isso a Anthony.
	O que acha que devo fazer enquanto voc viaja com meu irmo?!
Anne arregalou os olhos, sem acreditar no que ouvia. Anthony fazia uma pergunta como aquela apesar de ter jantado na noite anterior com a noiva, os pais dela e sua me, para discutir os planos do casamento.
	Que tal fazer exatamente o que tem feito nos ltimos dias? Aproveite suas frias na casa da famlia ao lado de sua noiva, ora!  A indignao endureceu sua voz ao pronunciar a ltima frase.
	Ah, agora estou entendendo... Estamos fazendo um jogo, no estamos?  Anthony deu um passo para trs com um sorriso nos lbios.
Anne no sabia que jogo ele estava fazendo e j tinha desistido de tentar adivinhar. Quanto a si mesma, no havia o que revelar.
	S estou querendo dizer que Raphael no me disse nada e que, portanto, no h jogo nenhum.
Anthony olhou-a com ateno.
	Est brava comigo por causa do casamento, Anne?
Brava? Ela nem sabia se estava. Confusa, sim, mas talvez nem isso, sobretudo por causa dele. Quanto a Raphael, bem, era uma outra histria.
	De modo algum, Anthony. Acho timo que seu casamento tenha sido adiantado. Agora, se me d licena... 
Tentou passar por Anthony para pegar a bandeja, mas ele segurou seu brao.  Est me machucando.
	Voc...
	Anne, querida, precisamos conversar sobre essa viagem que far com Raphael para Londres.  Clia apareceu de repente diante deles.
Anne tentava livrar-se das mos de Anthony, mas ao ouvir a voz da me ele soltou-a de imediato. Ela virou-se para Clia.
	Eu ainda no sei de nada, Clia. Talvez Raphael queira levar apenas Jssica.
	E claro que no. Acabamos de conversar, e ele me disse que voc tambm vai.
Anne gostaria que Raphael parasse de falar com as outras pessoas e fizesse o favor de contar a ela o que estava acontecendo. Parecia que todos naquela casa j sabiam o que estaria fazendo nos prximos dias, enquanto ela prpria no tinha a menor ideia.
O que iriam fazer em Londres? Onde se hospedariam? Ficariam apenas alguns dias?
	Voc vai adorar, querida  Clia encorajou-a ao perceber sua relutncia.  Poder visitar seus amigos.
Anne sentiu, mais do que viu, o olhar ameaador que Anthony lanou em sua direo. Talvez porque a ideia de rever algumas velhas amizades, na certa homens, no o agradasse. Bem, Anne tinha muitos conhecidos em Londres, alguns deles do sexo oposto, mas eram s amigos. E, mesmo que no fossem, no era da conta dele. Afinal, Anthony estava noivo e no tinha o direito de aprovar ou desaprovar quem quer que fosse.
Ora, sua atitude em relao a ele tinha mudado muito nos ltimos dias!
Mas Anthony estava noivo. E com a proximidade do casamento, a conversa na noite anterior com os pais de Davina, sem esquecer o detalhe relevante de que o pai dela era o patro dele, a concluso imediata era que .o enlace se daria em breve. Que papel Anthony estava pensando em oferecer-lhe nessa situao? No era muito difcil adivinhar, e muito menos a resposta que daria a ele. A prpria Anne era fruto do envolvimento de sua me com um homem que se recusara a deixar a esposa, mesmo sabendo que ela estava grvida. No tinha nenhuma vontade de repetir sua prpria histria.
Estava vivendo num mundo de faz-de-conta quando pensou que seria diferente com Anthony Diamond. Mas graas a Deus tinha cado em si. E se Raphael Diamond pensasse que com ele seria diferente, que se preparasse para o choque tambm.
	Sim, vai ser muito bom, Clia  Anne ignorou o olhar de Anthony.  Raphael deve conversar comigo sobre isso.
Agora, se me do licena, preciso levar esta bandeja para a cozinha.
	Anne...
	Anthony, precisamos conversar sobre o aniversrio de Davina na semana que vem  Clia lembrou-o.  Anne tem muita coisa para fazer.
Anne j tinha desconfiado, por certos comentrios e algumas conversas, que Clia no ignorava o envolvimento entre seu filho e a bab da neta. E agora tinha quase certeza de que sabia de tudo. Raphael estava certo mais uma vez: Clia queria Anthony livre para casar-se com Davina.
Anne encontrou Davina por acaso a caminho da cozinha. Aquele no era, de modo algum, seu dia de sorte!
	Ah, Anne, gostaria de conversar um pouco com voc... Mais uma!
Anne suspirou, resignada.
	Se for sobre a viagem a Londres com Raphael e Jssica, Anthony j me contou.
Um pouco surpresa, Davina meneou a cabea.
	No tem nada a ver com a viagem com Raphael. Esse assunto no me interessa.
At ento, Anne achava-a bonita, mas um pouco sem sal. Agora estava vendo em Davina uma frieza que at ento no conhecia. E se no queria falar sobre a viagem com Raphael, do que poderia ser? Anne aguardou, ansiosa.
Davina continuou olhando para ela com olhos frios como o gelo.
	 sobre Anthony...
	Ah, voc est a, Anne!  Raphael interrompeu-as com toda a calma e aproximou-se.  Procurei-a por toda parte.
Se a famlia inteira conseguiu encontr-la, por que ele no teria conseguido?
	Como vai, Davina?  ele a cumprimentou, carinhoso.  No notei que estava aqui.
Considerando-se que Davina era muito mais alta que Anne, com longos e brilhantes cabelos dourados sob o sol de outono, como poderia no t-la notado?
Anne preferia adiar esse primeiro encontro depois do beijo da noite anterior, mas, depois das conversas intermedirias com Clia e Anthony, estava furiosa com Raphael. E a irritao no diminuiu por t-la livrado da incmoda conversa com Davina. Porque agora tinha certeza de que Davina pretendia conversar sobre a "amizade" que Anthony nutria por ela. Talvez fosse tima ideia viajar com Raphael e Jssica.
	Bem, j me encontrou.  Anne nada fez para disfarar sua zanga. Sentia-se atacada por todos os Diamond.
Raphael arqueou uma sobrancelha com aquele seu jeito enigmtico.
	Sim, encontrei.
Anne corou.
	Estou indo levar esta bandeja para cozinha. Mas terei muito prazer em conversar com voc depois que fizer isso.
 Os pratos e as xcaras a faziam lembrar-se do lanche agradvel que fizera com Jssica pouco tempo atrs, mas que parecia ter acontecido havia sculos.
Raphael assentiu.
	Estarei na biblioteca.
A biblioteca!' O corao de Anne deu um salto, as mos tremeram, fazendo as xcaras baterem na bandeja. Aquele fora o lugar em que tinham se beijado com tanta paixo, e era onde voltaria a encontr-lo.
Talvez por isso Raphael tivesse escolhido aquele local. Raphael no era apenas perturbador, mas irritante, um espinho na vida de todos. Sobretudo na dela.
Mesmo assim, o beijara como se durante toda a sua vida tivesse desejado isso.
Bem, Raphael tambm beijara-a, mas o fato de t-la mandado cuidar de Jssica demonstrava a pouca importncia do que acontecera.
Para Raphael, aquela carcia s servira para mostrar que Anne no estava apaixonada por Anthony.
Raphael estava sentado em uma das poltronas de couro que ladeavam a lareira, com um livro aberto sobre os joelhos. Ergueu os olhos quando percebeu a presena de Anne.
	Charles Dickens.  Fechou o volume e voltou a coloc-lo na estante.  No  um de meus autores preferidos.
"Nem meu", Anne disse a si mesma, mas decidiu no concordar com nada do que ele dissesse. Dickens era um pouco depressivo para seu gosto. A bem da verdade, combinava bastante com seu atual estado de esprito.
	Quer conversar comigo, Raphael?
Ele inclinou a cabea de lado, olhando-a com um ar divertido.
	Algum pisou no seu calo, Anne?
	Como?
	Ah, ento  comigo que est zangada!
Ela soltou um ruidoso suspiro.
	A troco do que estaria zangada com voc?
Raphael riu.
	Se eu fosse voc, me sentaria, Anne.  Raphael indicou a outra poltrona.  Antes que o tapete incendeie sob seus ps. E pensar que cheguei a duvidar que fosse mesmo ruiva... Tudo bem, diga-me o que fiz para poder me desculpar e tirar isso do caminho. Depois continuaremos.
Ento ele era do tipo que no guardava mgoas. Estranho, no for a impresso que Anthony lhe passara quando contara sobre Joana... Mas talvez fosse outro caso. Havia muito antagonismo entre eles.
	 por causa de ontem  noite?  Raphael olhava-a com ateno.  Quer que eu me desculpe por t-la beijado?  isso?
Anne preferia no falar naquele assunto. Mas talvez fosse exigir demais.
	Bem, eu posso fazer isso  Raphael continuou, tomando seu silncio como confirmao.  S no sei por que, desde que no vou prometer que no acontecer de novo.  Esboou um sorriso devastador quando ouviu Anne engasgar.  Enfim voc acordou! E por ontem  noite, Anne?
	No!  que... todo mundo... Vamos a Londres...
	Vamos. No quer ir?  perguntou, gentil.
	Sim. No!  Suspirou, perturbada com a prpria hesitao.   claro que quero ir!
	Mas gostaria que eu tivesse conversado com voc antes de contar aos outros. Por ter se referido a "todo mundo", presumo que minha famlia teve imenso prazer de inform-la de meus planos antes que eu tivesse oportunidade de faz-lo. Apenas mencionei qualquer coisa aps o almoo, Anne. No sei por que foram correndo lhe contar.
Pois ela sim. Anthony, porque estava furioso por saber que viajaria com seu irmo, embora fosse bab da filha dele; Clia, porque a queria longe de Anthony o mais rpido possvel, e Davina, porque no quis conversar sobre a viagem, mas sobre um assunto muito mais pessoal. Pensando bem, a viagem a Londres chegara na hora certa.
	No importa, Raphael. E que eu.,.
	 claro que importa. Apesar do que eu possa ter lhe dito ontem  noite, no pretendia magoar nem aborrecer voc. Muita gente nesta casa j est fazendo isso, e no precisa de mais um. Peo desculpas por ter feito o que fiz. No devia ter mandado que fosse cuidar de Jssica. Basta ver as duas juntas para saber que gosta muito dela, e ela de voc.
Anne tomou flego e disse, com voz rouca:
	Obrigada.
	No agradea.
Raphael era incorrigvel. Era impossvel ficar brava com ele por mais de cinco minutos.
	Ento...  Anne continuou num tom mais firme, determinada a deixar a conversa no nvel profissional. O que no era fcil depois de ouvir que ele poderia beij-la de novo.
Isso no podia acontecer. Porque, se acontecesse, Anne temia reagir como na vspera. E envolver-se com um homem como Raphael, pai da criana da qual cuidava e que passava mais tempo fora do pas do que dentro dele, era mais ridculo do que o entusiasmo que sentira por Anthony.
	Quando vamos partir, Raphael? Preciso fazer as malas.
	Vamos no final da tarde. No se preocupe muito com Jssica. Ela tem muita roupa em meu apartamento.
No apartamento! Anne achou que ficariam num hotel. Um concluso absurda, visto que Raphael devia morar em Londres por causa do trabalho. Mas ficar na casa dele...
	No se preocupe, Anne. L h quatro quartos, portanto, no estou esperando que durma no meu.
Cus, quanta transparncia! Claro que no esperava dormir com ele, mas a ideia de ficar l, mesmo com a menina presente, era um pouco perturbadora.
	Dormir com Jessy seria a melhor opo, Raphael.
	Mas a menos divertida.
Anne no levou a srio. S podia ser brincadeira. No entanto, j era hora de parar com aquilo.
	Vou arrumar minhas coisas, ento.  Anne levantou- se para sair.
	Ficaremos apenas alguns dias. Depois, voltaremos para c.
	No se preocupe, Raphael.  Anne sorriu ao ver a expresso de pnico no rosto dele.  Eu trouxe tudo o que possuo numa nica mala. No preciso de tanto para dois ou trs dias.
Ele suspirou, aliviado.
	Enfim, uma mulher que no costuma levar a pia da cozinha e todos os mveis da casa!
Anne achou graa, e dirigiu-se para a porta.
	Mais uma coisa, Anne. Leve seu vestido preto.
Os olhos dela se arregalaram.
	Vamos sair  noite?
Ele a encarou.
	 provvel que no. Mas leve assim mesmo.
Anne nunca sabia se Raphael estava brincando ou falando srio. No dia anterior, quando a beijou, parecia muito bravo, mas uma boa noite de sono tinha mudado tudo isso. 
Anne!  Anthony estava  soleira da saleta particular de sua me.
Anne sentiu-se preocupada ao ir em sua direo. Melhor que Clia e Davina no estivessem l dentro ou teria de ouvir mais uma vez que no perdesse seu tempo com ele. Se aquele era o problema, podiam ficar tranquilos: seu entusiasmo por Anthony tinha passado por completo.
Venha c, Anne. Quero conversar com voc.
No havia ningum na sala. Mas isso no queria dizer que Clia no pudesse chegar a qualquer momento.
	Minha me est l em cima descansando  Anthony tratou de tranqiliz-l, fechando a porta atrs deles.
Nesse caso, ele tinha escolhido o melhor lugar. Ningum alm de Clia entrava ali, a menos que fosse convidado.
	O que , Anthony?  Anne estava inquieta.  Vou fazer as malas para a viagem.
	Ento voc vai mesmo com Raphael.
	E acompanhando Jssica  completou com muito cuidado.
	Voc vai com Raphael!  O tom acusador de sua voz provocou-lhe arrepios.
	E voc ficar aqui com Davina.
	Isso a incomoda, no ?
 claro que incomodava. Afinal, Anthony era um homem comprometido agindo como se fosse seu dono, o que, alm de ser inaceitvel, era uma experincia muito estranha para algum que sempre fora dona do prprio nariz.
	Eu acho que voc devia acertar sua vida, Anthony.
	Em que sentido?
	Em todos! H poucos dias voc me beijou, depois quis encontrar-se comigo no ancoradouro. E no apareceu, porque sua noiva o requisitou. Com todo o direito, diga-se de passagem. Agora, me corrija se eu estiver errada: esse compromisso, que voc mesmo disse ser uma farsa, parece ter progredido tanto que o casamento at foi adiantado. No sei bem onde  que eu entro nisso tudo.  Seus olhos ganharam uma tonalidade mais escura por causa da ira contida.
	Raphael tem razo. Voc fica bem mais bonita quando est brava!
Indignada, Anne recuou quando Anthony avanou em sua direo.
	Raphael s disse que eu era uma ruiva autntica.  Anne tinha ouvido muito bem, e a palavra "bonita" nunca tinha sido usada.
	Seja o que for.  Anthony abriu um sorriso cheio de charme.  Eu acho que fica linda quando est brava.
Anthony deu mais um passo  frente, ficando a poucos centmetros de Anne.
	Menos quando  comigo. Calma, Anne  acrescentou com a voz mansa ao perceber sua resistncia.  Ns j nos divertimos juntos, e voc podia relaxar um pouco.
Divertir-se! No, no era bem isso. Anne se sentira humilhada e depois culpada por ter beijado e permitido que um homem comprometido a beijasse. E Anthony chamava isso de diverso!
	At voc se casar no Natal?  Ela o rejeitou, empurrando-o para longe.
	E depois tambm, se tudo der certo entre ns. No vejo nenhuma razo para no continuarmos.  Anthony apertava o brao dela enquanto Anne tentava se soltar.
Anne arregalou os olhos, a pulsao to rpida que mal conseguia respirar.
	Pare com isso, Anthony!
	S se voc for boazinha.
Anne resistiu ao impulso de socar aquele rosto aristocrtico. Anthony, que no podia avaliar o grau de irritao em que ela se encontrava, sorria, cheio de alegria, certo de seu magnetismo irresistvel.
	Se eu for boazinha?  ela repetiu devagar, sentindo o dio crescer dentro de si.
	Isso mesmo. Vou me casar, mas continuarei vindo aqui com frequncia. E darei um jeito para que Davina permanea em Londres quando eu vier.
	 mesmo?  Anne no estava mais conseguindo se conter.
Anthony estava cavando um buraco fundo para si mesmo, e a qualquer momento teria muito prazer de empurr-lo para dentro dele.
	Eu seria sua amante?  As mos dela estavam to apertadas que as unhas se enfiavam nas palmas.
	 um modo meio antigo de se dizer, mas... Sim, acho que  isso.
	Bem,  a que voc se engana. Anne acabou perdendo o controle e empurrou-o para longe.
A expresso de surpresa no rosto de Anthony seria engraada se ela sentisse alguma vontade de rir.
E pensar que um dia chegara a pensar que Anthony estava interessado de verdade. Imaginava-os juntos, apaixonados, e o tempo todo ele no pretendia ser melhor do que fora seu pai.
	Se eu fosse voc, Anthony, no diria mais nada. A menos que tenha algum desejo pervertido de levar o soco no nariz que tanto quero lhe dar!  Anne respirava, agitada, o peito pesado, os olhos anuviados.  No pretendo, jamais, ser sua amante, nem de nenhum outro homem!
Dito isso, Anne virou as costas e saiu batendo a porta. "Amante! Meu Deus, ele escolheu a ltima pessoa que aceitaria tal estilo de vida!"
	At que enfim  observou uma voz admirada.
Anne deu de frente com Raphael, com o rosto vermelho de ira, encostado na parede como se estivesse ali havia muito tempo. Desde quando? Talvez no tivesse ouvido tudo...
	Desculpe-me por ter escutado a discusso.  Raphael aproximou-se dela.  Eu estava passando e por acaso ouvi a palavra "amante". Depois disso, no consegui mais sair. Mas foi uma pena voc no ter acertado Anthony como disse que queria fazer.
Anne no pensou, nem quis pensar, mas, sem se conter, deu um tapa no rosto dele com toda a raiva que a impedia de chorar. Depois, empinou o queixo e foi embora.

CAPITULO VI

aphael no a seguiu.
Mnne no parou at chegar ao quarto, mas, a cada passo, esperava sentir a mo de Raphael em seu brao para lhe dizer que no a queria mais cuidando de sua filha.
Mas isso no aconteceu. Ela ficou sentada na cama uns dez minutos esperando que ele entrasse no quarto.
Isso tambm no aconteceu. E por que no?
Anne sabia que a nica razo por ter agredido Raphael foi t-lo encontrado no lugar errado, na hora errada, e por isso descontara nele toda a ira que sentia por Anthony. E, para ser sincera, que sentia tambm por si mesma, por ter sido to estpida, to jovem e impressionvell
Talvez por isso tivesse agredido Raphael: porque ele estava certo!
Mas nada justificava o que fizera. Raphael no tinha culpa de conhecer to bem o irmo, e no era certo que toda a zanga tivesse sobrado para ele. A prova de sua reao, a marca vermelha no rosto, ainda estava l duas horas depois.
Sentada no banco do carro, Anne via claramente a marca de seus dedos no rosto do patro.
Evitava olhar, mas espiava pelo canto do olho. No conseguira dizer mais que umas poucas palavras desde que Raphael guardara sua maleta no porta-malas e entraram no automvel. Anne preferia no estar ali e procurava no chamar a ateno para si alm do necessrio. J era ruim o bastante que...
Desculpe-me, Anne.
Ela virou-se para Raphael e engoliu em seco. Nunca pensou que fosse capaz de ferir algum, mas a prova de que isso era possvel estava bem ali a sua frente. E ele ainda lhe pedia desculpa. Por qu, pelo amor de Deus?!
Raphael apertou de leve as mos dela, cruzadas sobre os joelhos.
Anthony  um canalha  Raphael disse entre os dentes, o olhar fixo na estrada.
Anne virou-se para trs, mas viu que Jssica dormia.
	Ela no gosta de longas viagens.  Raphael viu pelo espelho retrovisor a filha deitada no banco de trs e soltou as mos de Anne.  Dormindo, elas ficam mais curtas.
Anne tambm gostaria de dormir para eliminar aquele dia de sua vida.
	Perdoe-me por ter agredido voc, Raphael.
	Ei, estou tentando dizer que foi merecido!
	No era nada com voc.  Anne balanou a cabea com firmeza.
	Acredite: no foi o primeiro tapa que levei por causa de Anthony.
	Mas de mim ser o ltimo.  Anne estremeceu ao se lembrar da cena.
Raphael passou a mo na face.
	Que direita voc tem, srta. Fletcher!
	Por favor...  Anne tinha os olhos cheios de lgrimas.
 Estou muito envergonhada. No posso acreditar que fiz isso. Voc devia...
	Pare com isso, Anne! Voc foi ofendida, e para livrar-se da ofensa...
	...agredi voc.  ela gemeu, escondendo o rosto entre as mos. Parecia que a nica coisa que sabia fazer nos ltimos tempos era chorar.
	Anne, no chore! No suporto isso! Por causa de An thony?! Pare com isso!  ordenou, pegando-a pelos braos.
S ento Anne se deu conta de que o carro estava parado. Olhou ao redor e viu que tinham parado no acostamento. Num lugar proibido, a menos que fosse uma emergncia.
 uma emergncia, Anne  Raphael falou como se Anne pensasse em voz alta.
Ento, quando Raphael buscou, ansioso, por sua boca, ela no pensou em mais nada, apenas sentiu.
E que sensao! Jamais conhecera uma paixo to ardente e um desejo to intenso.
	Vocs esto a, papai?
Foi como se Raphael e Anne tomassem um choque ao ouvir a voz de Jssica no banco de trs. Eles se separaram, e Anne sentiu uma vergonha ainda maior. Quando era beijada por aquele homem, ficava sem a menor reao. No podia imaginar que fosse assim!
	Papai, ns j chegamos?  Jssica indagou outra vez.
Raphael virou-se para trs.
	No, Jessy, ainda no.
.   Ento por que paramos?
Raphael buscou a ajuda de Anne, mas ela no sabia o que dizer.
 que... entrou alguma coisa no olho de Anne! 
	Que desculpa absurda!
Anne permitira que Raphael a beijasse outra vez. Na noite anterior, fizera isso porque estava bravo. E ela, muito triste. Agora, o fazia porque sentira pena dela. E Anne estava magoada. O fator comum aos dois incidentes eram suas lgrimas. Ento o melhor a fazer era parar de chorar. Pelo menos na frente dele...
	J melhorou?  Jssica quis saber, ainda sonolenta.
Raphael olhou para Anne e repetiu:
	J melhorou? O beijinho ajudou a passar?
Ela o reprovou com o olhar e virou-se para Jssica.
	Estou bem melhor, obrigada. Est tudo certo.
	Droga!  Raphael murmurou, olhando pelo retrovisor.
Anne levou um susto.
	O que foi?
Ele balanou a cabea e abriu a porta do carro.
Olhe s os problemas que voc me causa, moa! Parecementira que nos conhecemos h apenas quarenta e oito horas. 
Anne virou-se para trs e viu um policial se aproximando do Mercedes. O carro de polcia estava estacionado logo atrs. Raphael parara em local proibido. No ia ser fcil o oficial aceitar a desculpa de um cisco no olho de Anne. Raphael tinha razo: ela s lhe criava problemas.
Jssica sentou-se e olhou pelo vidro detrs.
Meu pai fez alguma coisa errada? Ele vai ser preso?
Anne esperava que no, ou jamais saberia o final daquela histria.
Os dois homens conversaram alguns minutos. O policial tirou um bloco do bolso e comeou a anotar. Estava multando Raphael. E por culpa sua. Daquela vez, ele iria se zangar de verdade.
Anne preparou-se para o que desse e viesse quando o viu afastar-se do guarda com um papel na mo e uma expresso muito sria. Dessa vez no haveria beijos... nem que ela chorasse!
Raphael no disse nada quando entrou no Mercedes.
Papai...
Agora no, filha  Raphael olhou outra vez pelo espelho. Vamos voltar para a estrada o mais rpido possvel.
 Ligou o motor e entrou na pista.
Anne no sabia o que dizer, nem se devia falar alguma coisa. Podia piorar tudo.
	Que sorte!  Raphael acabou rompendo o silncio. Acomodou-se melhor no banco quando o policial ficou para trs.
	Sorte?  Anne no entendeu. A ltima coisa que se podia imaginar  que fora bom tudo aquilo.
	Ele me reconheceu e disse que gosta muito de meu trabalho. Apreciou, em especial, uma matria que escrevi no ano passado sobre o crime nos subrbios. O irmo dele, que tambm  policial, elogiou muito o artigo. Disse-me que guardou o jornal, mas a mulher dele usou para acender a lareira. Pediu para lhe mandar uma cpia. Tenho o disquete no apartamento e farei o que pediu quando chegarmos. O papel que Raphael trouxera no era a multa, mas o endereo do guarda. Anne tinha imaginado todo tipo de problema: audincias, penalidades...
	Essa  a vantagem de ser famoso, Raphael.
Ele lanou-lhe um rpido olhar.
	Eu no sou famoso, Anne.
	Mas seu trabalho .
	Pode ser. Pelo menos nos livrou de uma multa pesada.
O homem riu quando eu disse que paramos porque tinha entrado alguma coisa em seu olho!  Raphael apertou a mo dela de novo, dessa vez para celebrar, e voltou a segurar o volante.
	Posso dormir mais um pouco, papai?
Anne, ento, retomou seu papel. Era a bab de Jssica, seu dever era cuidar dela, e nada mais.
	Faa como quiser, filhinha. Ainda temos um longo caminho pela frente.
Jssica deixou escapar um longo suspiro e voltou a deitar-se no banco.
Anne tambm suspirou. Nem tinham chegado a Londres, e ela j estava arrependida. Como passaria alguns dias na casa daquele homem, mesmo Jssica estando junto?
	Voc est muito quieta, Anne  Raphael observou logo depois.
	Estou?
	 o que parece.
	No sou de falar muito.
	Eu no disse isso. Quis dizer apenas... Que droga, mulher! Nunca sei se devo beij-la ou sacudi-la por me deixar to perturbado!
	Da prxima vez, sugiro que me sacuda...  mais seguro para todos.
Raphael no esperava aquela resposta, e soltou uma gargalhada.
Minha jovem, voc no sabe o mal que faz a meu ego!
Mesmo sem querer, Anne no pde deixar de rir. O mal-estar de minutos atrs desfez-se no ar.
No era nele que eu estava pensando, Raphael. O prximo policial pode no ser seu f.
 verdade. Mas no faa nada que me obrigue a parar o carro para beijar ou sacudir voc!
Anne no sabia por que ele faria isso. Se falava, parecia dizer a coisa errada; se no falava, tambm estava errada! O melhor era fazer o mesmo que Jssica: dormir.
Anne fechou os olhos, simulou um tremendo cansao e logo no estava mais fingindo, mas dormindo como um anjo.
J tinha escurecido quando chegaram a Londres e, acabando de acordar, Anne logo reconheceu em que parte da cidade estavam. No era um lugar muito conhecido. Ela apenas tinha passado por l poucas vezes.
Mas no foi surpresa quando Raphael entrou com o carro na garagem subterrnea de um elegante edifcio. Sendo dono da Casa do Penhasco e de uma grande rea de terra ao redor, no era de estranhar que tivesse um apartamento naquele lugar.
A segurana do condomnio tambm no a surpreendeu: um guarda no estacionamento, outro no andar trreo, ao lado da escada. Ningum impediu-lhes o acesso, sinal de que Raphael era mesmo um dos ricos proprietrios.
A casa no parecia fazer parte de todo o complexo, pois ficava no trreo, com jardim gradeado no fundo. Era muito bem mobiliada, com mveis antigos e tapetes autnticos. Anne olhou em volta e ocorreu-lhe uma nica palavra: elegncia. Muito diferente do apartamento que dividira com suas amigas at pouco tempo atrs, que caberia inteiro s naquela sala.
	 alugado  Raphael informou-a, ao perceber sua reao.  Portanto, no  meu.
O aluguel de um lugar como aquele deveria custar o equivalente a um ano de seu salrio.
	Ora, Anne! E a primeira vez que tenho de me desculpar pela casa que escolhi para morar!
No era isso o que a incomodava, mas sim a localizao do imvel e quanto deveria custar, pois deixava evidente a distncia que havia entre ela e a famlia Diamond. Decerto, no pedia que ele se desculpasse por isso.
	E muito bonito.  Anne fez aquele comentrio para no aborrec-lo ainda mais.
Os dois sabiam muito bem o que acontecia quando Raphael se zangava.
	E est bem-arrumado  Jssica observou.  Pelo jeito, faz tempo que voc no vem aqui, no , papai?
	Pelo menos trs meses, filha. Cheguei aqui na quarta-feira, entreguei minha ltima matria e fui direto para a Casa do Penhasco.
Teria sido por causa de Jssica? Ou ser que foi outro motivo o que o fez ir to depressa para a manso da famlia?
Raphael a olhou de forma enigmtica, como que respondendo a suas indagaes.
	Mas mandei colocar algumas coisas na geladeira  Raphael explicou, rpido.  Tem ch para mim e Anne, e suco de laranja para voc, minha garotinha.  Acariciou a cabea de Jssica.  Anne ficar no quarto ao lado do seu. Mostre a ela onde fica enquanto preparo as bebidas.
Anne gostou de ter alguns minutos a ss para se acostumar ao novo ambiente. Era bvio que no imaginava que o apartamento de Raphael fosse como o quarto da velha casa vitoriana que dois meses atrs tinha sido seu lar. Afinal, ele era um Diamond, cuja famlia tinha muitas posses. Mas no esperava tanto.
Isso provava que o relacionamento deles no fora, desde o incio, apenas profissional. Anne fizera Raphael rir, conseguira irrit-lo e nas ltimas vinte e quatro horas ele a beijara duas vezes. E quase a fizera esquecer que eram patro e empregada. Isso no poderia acontecer outra vez.
	E um quarto lindo, Jessy.
E era mesmo. As cores predominantes, o creme e o dourado, tornavam-no acolhedor e agradvel. Mas isso era o que menos importava. Iria ocup-lo apenas por alguns dias.
Fazia sculos que eu no vinha aqui, Anne.
Ento aquela viagem a Londres no acontecia com frequncia. Por que ser que Raphael resolvera ir daquela vez?
Anne sorriu.
Talvez no tenha sido to ruim torcer o tornozelo, Jessy  brincou.
Jssica riu tambm, um sorriso muito parecido com o do pai. Pela primeira vez, Anne se perguntou que idade teria Joana. No havia nenhuma foto, nem no dormitrio de Jssica, nem em nenhum lugar. No apartamento todo s havia um porta-retrato com uma foto da garota na sala de estar. Mas de uma coisa Anne tinha certeza: Joana no devia ser ruiva, nem de baixa estatura.
Por que teria pensado nisso agora?
Vamos tomar nossas bebidas  Jssica lembrou.  Papai no  bom em assuntos de casa, portanto, o ch deve estar um horror. Prepare-se!
Elas ainda riam quando entraram na cozinha.
Posso saber qual foi a piada?  Raphael sentou-se para servir o ch.
Anne e Jssica se entreolharam, balanaram a cabea ao mesmo tempo e caram na gargalhada outra vez. Aquilo fez muito bem a Anne. Ria pouco ultimamente.
J vi tudo! Eu sou a piada!  Raphael entregou a Anne uma xcara de ch.
Aquela reao bastou para que as duas voltassem a rir, tanto que Anne nem conseguia pegar a xcara sem tremer.
	Ah, bom, ento o motivo da graa  o ch! Admito:
no est mesmo muito bonito...
	Foi isso o que eu disse a Anne  Jssica revelou, por fim.  Por que acha que sempre prefiro tomar suco?
	Sua danadinha!  Raphael fez um carinho no rosto da filha.  Ser que Anne sabe fazer melhor?
Ela arregalou os olhos.
	No fui eu que falei mal de seus dotes culinrios, Raphael!
	No, mas est rindo junto com Jessy!
Anne no se animava muito a beber o que tinha diante de si, um lquido cor de lama nada convidativo.
	Quantos saquinhos voc ps no bule?
	Gosto de ch forte  Raphael se defendeu.
	Eu tambm, mas... minha medida  sempre um para cada xcara e um para o bule.
	O bule  grande, Anne.
	Quantos saquinhos voc ps aqui?  ela insistiu.
	O suficiente.
	Papai...
	Tudo bem: foram seis!
Contendo a risada, Anne despejou o bule na pia e comeou tudo outra vez.
	Vai querer ch, Jssica?  perguntou, segurando mais um saquinho.
	No se atreva a dizer que sim s porque no sou eu que vou fazer!  Raphael desafiou a filha.  Vou esperar na sala.
Anne ficou olhando Raphael sair, com os lbios ainda curvados num sorriso.
	Ser que fizemos alguma coisa errada, Jessy?
	No.  A menina acomodou-se num banco.  Papai vai gostar de tomar um ch decente para variar!
Anne no saberia dizer se ele gostou quando voltaram a se reunir na sala. Raphael bebeu o contedo da xcara sem dizer uma palavra. Mas no era um silncio que incomodava, e Anne admitiu que no tinha sido-m ideia substitu-lo na cozinha. Formariam uma bela famlia...
Mas ela logo afastou aquele pensamento. Famlia era para outras pessoas, no para ela. Um dia teria a sua, mas era preciso ter cuidado para no se apegar muito a Jssica. Quanto ao pai dela...
Raphael conseguia faz-la rir. E isso podia ser mais perigoso que um beijo.
Raphael no era do tipo que se casava. Amava a filha, era evidente, e devia ter outra mulher em sua vida, apesar da profisso que escolhera faz-lo levar uma vida nmade. E ele j sabia, pela conversa que ouvira entre Anne e Ant-hony, que no admitia ser amante de ningum.
Mas por que estaria pensando nisso? Raphael apenas a beijara duas vezes, e nunca lhe declarara seu amor. Na verdade, no dissera absolutamente nada!
	Muito bom  Raphael deixou a xcara vazia sobre a mesa.
	Papai!  Jssica reprovou-o mais uma vez.
	Eu disse que estava bom, no disse? Voc tambm sabe cozinhar, Anne?
	Tomara que sim  Jssica implorou.
Anne no tinha pensado nisso. Fazia dois meses que no precisava se preocupar com as refeies na Casa do Penhasco. Mas estava no apartamento de um homem sozinho, onde no existiam todas aquelas facilidades.
	Sei fazer o trivial  tratou de explicar para que no a tomassem como uma cozinheira de forno e fogo.
	Papai no sabe nem esquentar um ovo.
	Sei, sim!  ele protestou, mas sem esconder um sorriso.
	Sabe nada, pai. Lembra-se daquela vez...
	Est bem.  Raphael ergueu a mo.  No sei mesmo cozinhar.
	Papai esqueceu de pr gua na panela  Jssica cochichou para Anne, mas alto o bastante para que Raphael ouvisse.  Voc sabia que o ovo explode?
	No, Jssica, e nunca pensei muito nisso.  Anne resolveu mudar de assunto antes que Raphael perdesse a pacincia.  Agora sei por que me trouxeram junto!  Fingiu indignao.  Ningum est querendo arriscar-se a morrer de fome!
	Ela est nos provocando, Jessy.  Raphael piscou um olho para a filha.
	No  muito difcil.  Anne aceitou a brincadeira.  O que temos para jantar?
Anne arqueou as sobrancelhas, certa de que Raphael havia providenciado alguma coisa.
	Bife  ele informou no mesmo instante.  Jssica pode preparar a salada.
	De acordo, pai! Da ltima vez, encontrei uma lesma nas folhas. 
	Vou deixar o jantar com vocs.  Raphael levantou-se, decidido.  Preciso dar alguns telefonemas. Estarei em meu estdio, a primeira porta  direita. Chamem-me quando estiver pronto.
Anne virou-se para Jssica com um sorriso nos lbios.
	Acho que ele ficou bravo conosco!
	No ficou, no. Est  feliz por ter se livrado do trabalho.
Anne preparou a carne, Jssica concentrou-se na salada, e, em meia hora, a mesa da cozinha estava posta.
	Vou chamar papai  Jssica se prontificou, ansiosa para mostrar-lhe o resultado de seu trabalho.
	Deixe que eu vou, querida. Voc no pode ficar andando muito com este tornozelo engessado.
	Ento vou acender as velas.
	Espere eu voltar com seu pai para fazer isso.
As velas tinham sido ideia de Jssica, bem como as duas taas de vinho nos lugares de Anne e de Raphael. A menina sabia que seu pai bebia vinho s refeies. Anne no tinha certeza, mas achou boa ideia, embora seu limite fosse apenas o de um copo.
Do corredor podia ouvir Raphael falando ao telefone, por isso Anne hesitou em bater. Mas o jantar podia esfriar...
O movimento de sua mo parou a meio caminho quando ouviu-o dizer do lado de dentro:
Pea a Margaret para me ligar assim que ela chegar. Preciso muito falar com ela.
Margaret? Anne tinha ouvido esse nome fazia pouco: a pessoa a quem substitura. Raphael mantinha contato com ela. E disse que precisavam conversar... Por qu? Tudo bem que ela tivesse abandonado o emprego, mas...
Sim, recebi a carta  Raphael ainda falava ao telefone. Mesmo assim preciso falar com ela.
Margaret tinha escrito para ele! O que haveria entre os dois? Ento, Anthony no era o nico da famlia que se relacionava com as empregadas...

CAPITULO VII

	Voc no falou nada durante todo o jantar, Arme  Raphael falou, quando os dois j estavam na sala e Jssica j tinha ido dormir.
Para Anne, a surpresa maior era ter conseguido comer. Quanto ao seu limite de tolerncia para vinho... Bem, ela aceitou a segunda taa oferecida por Raphael, na esperana de conseguir pr ordem em seus pensamentos.
Raphael e Margaret...
Como as coisas se encaixavam agora! A reao de Raphael fora muito clara ao saber que Margaret no estava mais na Casa do Penhasco: sara perguntando a cada m por que razo ela teria ido embora de maneira to inesperada. E no pensou duas vezes em viajar a Londres para tentar conversar com ela pessoalmente.
Diante disso, o mais provvel era que tivesse partido de Margaret a deciso de pr fim ao relacionamento. Fosse ou no verdade, o fato era que Raphael estava desesperado para v-la.
Anne no abrira a boca durante o jantar, mas a cabea no parou de funcionar. No tinha se apaixonado pelo homem errado apenas uma vez, mas duas, num pequeno espao de tempo. Como algum podia ser to ingnuo? No fora difcil reconhecer que Anthony tinha sido um terrvel engano de sua parte, mas Raphael... Ah, Raphael era outra histria! Parecia-lhe to sincero, to confivel... pelo menos, at pouco tempo atrs.
Anne percebeu que estava apaixonada por ele quando se viu to desorientada diante da porta de seu estdio.
Gostava de estar com ele, sentia-se bem a seu lado, mas, ao mesmo tempo, muito insegura. O mais importante era que ele conseguia faz-la rir.
S que agora no estava rindo mais, assim como no rira durante o jantar. Era como se as brincadeiras e as provocaes anteriores nunca tivessem acontecido. A refeio tinha sido apenas uma atividade de rotina.
Mas Anne conseguira controlar-se at o fim, aceitara com um'sorriso sem graa os cumprimentos pela comida e levara Jssica para a cama enquanto Raphael tirava a mesa.
Agora, o que Anne mais queria era lamber as prprias feridas na privacidade de seu quarto. No entanto, estava mesmo sentindo-se machucada, magoadssima por ter se enganado tanto em relao a Raphael.
	Anne?  Raphael estranhou o fato de ela no ter respondido nada.
Anne ergueu-se de um salto, com as mos cruzadas, para disfarar o tremor.
	Estou muito cansada, Raphael. Se no se importa, pretendo ir me deitar.
Sem conseguir encar-lo, Anne fixou um ponto qualquer sobre o ombro de Raphael, que estava sentado na poltrona.
	Voc nem tocou em seu licor. '
Claro que no. Mais uma gota de lcool e o pior aconteceria a qualquer momento.
Raphael e Margaret teriam ficado conversando naquela sala, mesmo com Jssica presente? Tambm teria lhe oferecido licor e pedido a ela que se sentasse a seu lado? Ser que fora assim que tudo comeara? Ser que eles dois...
	Anne, voc est bem?  Raphael levantou-se, deixando o clice sobre a mesinha.  Minutos atrs, parecia tima, agora est to plida!
Minutos atrs estivera corada por causa do vinho que ingerira. Agora estava branca porque ia vomitar.
No mesmo instante, Anne virou-se e saiu correndo da sala. Conseguiu chegar ao banheiro a tempo de devolver toda a comida que tinha se forado a engolir pouco tempo atrs. Seus olhos se encheram de lgrimas com o ataque inesperado.
Raphael entrou atrs dela.
	Voc no est bem mesmo.  Ele pressionou uma toalha molhada na testa dela.
A presena dele no banheiro fazia-a sentir-se ainda pior. Sua vontade era de morrer, deitar-se ali mesmo e...
	Venha, Anne, vou ajud-la a ir para o quarto.  Raphael ainda segurava a toalha em sua fronte.
Anne endireitou-se, tentando se recompor.
	No, Raphael. J estou bem, obrigada.  Afastou a mo dele, aliviada por no mais tremer tanto.  Sou pssima para viagens. Foi isso o que me fez mal.
	Voc enjoa quando viaja de carro?
"Digamos que enjoo mais com emoes fortes", ela pensou.
	Mais ou menos isso  Anne concordou, louca para ficar sozinha.
- Primeiro, o cavalo, depois, o carro... Voc no anda com muita sorte, no ?
"Sobretudo no que diz respeito a homens." Alm do qu, toda aquela conversa estava acontecendo dentro do banheiro!
	Pois , Raphael...  Anne passou por ele para sair dali.
Raphael acompanhou-a pelo corredor.
	Lembra onde  seu quarto? Ou ser que tambm tem problemas geogrficos?
Anne sentiu que ele estava rindo dela, embora sua expresso enigmtica no demonstrasse isso.
	No, Raphael, s tenho problemas com cavalos e automveis. Amanh estarei me sentindo melhor.  Isso Anne podia garantir. O que precisava agora era ter uma boa conversa consigo mesma. E era o que ia fazer.  Se me der licena...
	Anne?
Ela virou-se, relutando em olhar para ele.
	Sim?
Raphael estava muito bonito ali parado, ainda usando a camisa preta e a cala azul da viagem. Nem se preocupara em trocar de roupa antes de comer, depois de dar aquele telefonema para Margaret...
Ele abriu um sorriso muito perigoso.
	Boa noite, Anne.
 Boa noite.  Anne fechou-se no quarto antes que ele a detivesse por mais tempo.
Antes de se deitar, foi ver como estava Jssica e encontrou-a dormindo como um anjo, os lbios curvados num meio sorriso. O sono dos inocentes.
Anne sentia-se da mesma forma: uma ingnua. Devia ter percebido que Raphael tivera uma reao exagerada quando soubera que Margaret, uma simples bab, tinha resolvido ir embora. At Anthony, que s olhava para si mesmo, notara sua reao.
Raphael e Margaret, a desconhecida.
Bem, no era surpresa nenhuma que Raphael, um homem vivo, se envolvesse com outras mulheres. Era um homem muito msculo para ser diferente. Mas jamais passara pela cabea de Anne que uma delas fosse a antiga bab de Jssica. E, pelo fato de Raphael procur-la, aquela histria estava longe de terminar.
As risadas, as brincadeiras e os beijos que eles haviam trocado no tiveram importncia. No para Raphael, pelo menos.
Quanto a ela mesma, o que mais queria agora  que ele viajasse o quanto antes. No estando por perto, fazendo-a lembrar o tempo todo o que sentia, acabaria superando a decepo.
Isso era o que Anne gostaria que acontecesse, mas no estava muito certa de vir a conseguir. A partir de ento, faria o possvel para que a relao entre eles se mantivesse no nvel estritamente profissional.
Anne adormeceu ao tomar aquela deciso. No com a mesma inocncia de Jssica, que tinha a conscincia tranquila, mas vencida pelo cansao.
S que dormiu mais do que devia.
O radiorrelgio estava marcando nove e quinze da manh. Havia anos no dormia at to tarde. O que Raphael iria pensar?
Anne vestiu-se depressa. Sem tempo de maquiar-se, deu apenas uma boa escovada nos cabelos. Tinha de correr para a cozinha. Jssica devia estar com fome, e Raphael tambm.
Mas s encontrou um bilhete preso  porta da geladeira:
"Estou com Anne no parque. Tome seu desjejum sossegada. Espero que tenha dormido bem. Raphael".
Anne jogou-se numa cadeira. De que servira tanta pressa, se Jssica tinha sado com o pai? Mas algo lhe dizia que a ltima frase do bilhete era sincera, no ocultava nenhum sarcasmo.
Picou olhando para o papel. Era a primeira vez que via a letra de Raphael: grande, forte, com o R bem desenhado.
O apartamento ficava vazio sem ele. E sem Jssica,  claro. Mas era de Raphael que Anne estava sentindo falta. Ele sara havia poucas horas e j estava saudosa. E dizer que na noite anterior tinha pensado que, quanto antes Raphael fosse embora, melhor...
Anne gemeu, cobrindo o rosto com as mos. Estava perdidamente apaixonada por aquele homem.
Em nada se comparava ao que sentira por Anthony. E Raphael estava to distante de sua vida quanto Anthony, e tambm tinha outra mulher.
Anne levou um susto quando o telefone da cozinha tocou. Olhou para o aparelho: devia atender ou no? Se fosse algum procurando pelo dono da casa, ele no estava. Mas podia ser uma emergncia. Ou mesmo o prprio Raphael, para dizer que tinha acontecido alguma coisa a Anne.
Era preciso atender.
	Residncia de Raphael Diamond.
Fez-se silncio do outro lado, e enfim uma voz doce perguntou:
	Posso falar com Raphael, por favor?  O sotaque era irlands, a voz, um pouco rouca, mas sem dvida nenhuma feminina.
Anne ficou nervosa. Raphael parecia ser to tranquilo, to seguro... Como conseguia ser assim tendo tantas mulheres em sua vida? E se todas elas resolvessem procur-lo ao mesmo tempo?
	No momento ele no est  Anne respondeu de forma evasiva, um pouco incomodada com aquela conversa. Xevou Jssica ao parque.
De repente ficou em dvida se devia ou no ter mencionado a menina. Por morar sozinho, talvez muita gente nem soubesse que tinha uma filha.
	Como Jssica est?  a voz suavizou-se ao perguntar da garota.
Ela conhecia Jssica!
	Muito bem  Anne respondeu, rspida, sentindo um tom um tanto possessivo na prpria voz. Mas o que podia fazer se Jssica e Raphael tinham se tornado to importantes para ela?
	Que bom! Voc  a empregada?
	No, no sou. Quer deixar recado?
	Se no se importa...
Anne suspirou.
	No me importo.
	Diga a Raphael que Margaret ligou. E que ficarei esperando que ele me ligue quando voltar.
Anne quase no ouviu a ltima parte do recado. O nome Margaret foi a nica coisa que conseguiu registrar: a ex-bab de Jssica, a mulher com quem ele queria tanto falar na noite anterior.
	Eu direi a Raphael.
	Obrigada. E d um beijo em Jssica por mim. Diga que a amo muito.  E desligou.
Anne tornou a sentar-se. No queria dar aquele recado a Raphael. E tambm no queria dizer a Jssica que Margaret a amava.
Que coisa mais ridcula! Se no avisasse Raphael, e ele no ligasse de volta, Margaret telefonaria outra vez. Anne sentiu-se uma tola por pensar assim. Mas no sabia se conseguiria dar o aviso sem emocionar-se outra vez.
E se escrevesse num papel, o mesmo em que Raphael rabiscara e ainda estava sobre a mesa?
Anne reconhecia sua covardia, mas o que fazer, agora que conhecia seus sentimentos por Raphael? Dizer-lhe que outra mulher o procurara? Isso seria ferir a si mesma em demasia. Por fim, decidiu-se por escrever um bilhete, e foi lavar a loua da noite anterior, que ainda estava sobre a pia.
Quando j estava guardando os pratos no armrio, ouviu Raphael abrir a porta.
	J se levantou, Anne?  Ficou surpreso por encontr-la na cozinha.
	So mais de dez horas. Desculpe-me por ter dormido tanto.  Tirou o casaco de Jssica.  Isso quase nunca acontece. No me lembro da ltima vez em que...
	No estou dizendo nada  Raphael interrompeu-a com delicadeza.  S fiz um comentrio. Estava timo no parque, no , filha?
"Sem minha presena..."
Anne comeou a sentir-se dispensvel. E tinha de confessar que isso a entristecia. Amava aquele homem e sua filha, e um dia teria de deix-los. Talvez antes do que imaginava, se Raphael quisesse mesmo ficar com Margaret.
	Foi muito divertido!  Jssica assentiu, o rosto ver melho de tanto brincar.
	Vocs devem estar com frio.  Anne, de repente, se sentiu pouco  vontade na presena de Raphael.  Querem beber alguma coisa quente? Prometo pr apenas trs saquinhos de ch no bule.,
Raphael sentou-se ao lado de Jssica.
Anne achou que estava imaginando coisas, como se a frase "eu amo Raphael Diamond" estivesse escrita em sua testa. No era possvel que ele pudesse ler seu corao. E s dependeria dela que Raphael no soubesse jamais.
	Eu no quero ch. Vou arrumar os quartos enquanto vocs o tomam.  Anne se lembrou de que sara do quarto com tanta pressa que nem tinha arrumado a cama.
Raphael ainda a fitava.
	A cama pode esperar. Alm disso, Jssica e eu j arrumamos as nossas. Sente-se e tome ch conosco.
No era possvel. Aquele homem tinha mesmo o dom da telepatia.
	Preciso arrumar meu quarto.  Anne no conseguia encarar Raphael.  A bebida est pronta.
	No queremos ter gmeos, no , Anne?
	Gmeos?
	Quem faz o ch deve servi-lo, caso contrrio uma das duas pessoas ter filhos gmeos. E uma velha crendice.
	Eu acho que isso  uma desculpa para no servir, Raphael.
	Eu tambm  Jssica concordou.  Nunca ouvi esse ditado.
Raphael abriu um sorriso irresistvel.
	Ento vou ter de servi-lo?
	Parece que sim, Raphael. Ah, a propsito! Ligaram para voc. Anotei naquele papel.
	 mesmo?  Raphael leu a mensagem, to depressa que Anne nem teve tempo de sair.  Quando foi que Margaret ligou?
	Meia hora atrs.
	Droga!  Amassou a folha.  Vou precisar sair. Vocs duas ficaro bem, sozinhas aqui?  Era mais uma afirmao do que uma pergunta.
"Raphael vai encontrar-se com Margaret", Anne pensou. No ia retornar o telefonema, mas encontr-la pessoalmente.
	Tem comida na geladeira para o almoo, Anne.
	Ns nos arranjaremos, fique sossegado.
Raphael notou a frieza da resposta.
	O que foi que ela disse?
	O que est escrito a.
Anne no mencionou, como ele tambm no, de quem era o recado. Talvez para no dizer o nome dela na frente de Jssica. Sem entender por que, Anne sups que Jssica faria perguntas sobre a ex-bab que Raphael no iria quer responder, e nem caberia a ela revelar de quem se tratava a ligao. Sentia que no gostava de Margaret sem nunca ao menos t-la visto.
Raphael assentiu.
	Arrume seu quarto e faa o que tem de fazer enquanto bebemos o ch, Anne. Depois eu vou sair.
"Ele est ansioso para encontr-la!", pensou. Anne sentou-se na cama debatendo-se contra o cime que a assombrava pela primeira vez na vida. No fora isso o que sentira quando soubera que Davina era a noiva de Anthony. Tinha sido mais uma decepo consigo mesma por ter se envolvido com um homem comprometido, mas cujas intenes s conheceu quando ele pediu-lhe para ser sua amante. Agora era de Davina que Anne sentia pena.
Margaret era outra histria. Fora to gentil ao telefone que seria muito difcil no gostar dela. Mas a raiva que sentia era tanta que at a impedia de respirar.
Mas no poderia ficar escondida naquele quarto o dia todo. Precisava voltar  cozinha e cuidar de Jssica enquanto Raphael estava fora. Com Margaret.
Anne escondeu o rosto entre as mos e comeou a chorar. Por que amar era to doloroso? Prazer e sofrimento. Era a primeira vez que sentia ambas as emoes ao mesmo tempo. Raphael a fazia rir e sofrer por am-lo tanto e no ser correspondida. Isso era intolervel!
O que devia fazer?
O que iria fazer, isso sim. No queria afastar-se de Jssica. E, para ser sincera consigo mesma, tambm no queria abandonar Raphael, ainda que ele no correspondesse a seu amor. Mas se Margaret voltasse para eles, saberia cuidar bem de Jssica, e Anne no teria escolha. Mas enquanto isso no acontecia...
	Anne?  Raphael bateu na porta.
Ela secou as lgrimas antes de abrir.
	Sim? J vai sair?
	Vou trocar de roupa, antes. Voc melhorou depois de ontem  noite? Estou achando que no.
	Muito obrigada! Voc sabe como elogiar uma mulher!
 Anne queria comportar-se com naturalidade, e a melhor maneira era entrar na brincadeira.
Margaret ainda no voltara para a vida dele, e enquanto isso... Vale tudo na guerra e no amor, no ?
	Espero saber mesmo.  Raphael abriu aquele sorriso estonteante, e Anne sentiu o rosto corar.
	V tranquilo. Jssica e eu ficaremos bem.
	No vou demorar.
Anne no deixou que Jssica percebesse sua angstia quando as duas resolveram fazer bolinhos para passar o tempo. Mas, no fundo, no parou de pensar em Raphael um instante sequer.
Faltava metade dos ingredientes, e o resultado final dos bolinhos nada tinha de apetitoso. Porm, serviu para as duas se divertirem bastante, e isso era o que interessava.
	Agora vamos provar, Jessy.
	Vamos l.  A menina riu, olhando para o bolos chatos e meio queimados.  Voc primeiro!
	Voc  mais nova.  Anne torceu o nariz.
	Um motivo a mais para que experimente primeiro. Ainda tenho muito o que viver.
Anne olhou para Jssica, para os bolinhos, e de novo para a garota.
	J sei, Jessy! Vamos dar a seu pai quando ele chegar.
	Que maldade!  Jssica gargalhou, mas no descartou a ideia.
Talvez fosse mesmo. Mas, para ser sincera, no se podia dizer que Anne estava tendo bons sentimentos em relao a Raphael naquele momento.
Ela virou-se ao ouvir a porta se fechar. Quem poderia ser, se Raphael tinha sado havia -menos de uma hora?
Mas foi ele mesmo quem entrou na cozinha, com o rosto atormentado.
	Vocs, mulheres!  resmungou, jogando o casaco sobre uma cadeira.  S se pode entend-las quando esto dormindo! E, mesmo assim, no  fcil. Vou para o estdio telefonar.  E saiu sem olhar para trs.
	O que foi que deu nele?  Jssica perguntou.  Nunca vi meu pai assim.
Anne at podia adivinhar. Raphael se encontrara com Margaret e, bvio; aquele encontro o perturbara. Pelo jeito, dera tudo errado.
Anne no pde evitar de sentir um secreto prazer por isso.

CAPITULO VIII

	No  hora de oferecermos os bolinhos. Papai no est para brincadeiras.  Jssica jogou os doces no triturador da pia.
Estranho, mas o mau humor de Raphael trouxe de volta a alegria de Anne. No sabia o que tinha acontecido entre ele e Margaret, mas, pelo jeito, no dera nada certo. Bem feito! Anne, ao menos, estava sentindo-se muito bem.
Mesmo que fosse maldade de sua parte, nada podia fazer contra isso. No queria que Raphael e Margaret reatassem. Se amava Raphael, como poderia desejar que fosse diferente?
	Vamos comear a fazer o almoo, ento, Jssica. Acho que seu pai vai querer comer conosco.
Se Raphael estava ou no sentindo fome, era outra histria.
Como Raphael no apareceu na cozinha at meio-dia e meia, Anne resolveu ir busc-lo.
Ele ainda estava no estdio. Anne bateu na porta e encontrou-o sentado atrs da escrivaninha com os ps sobre a mesa.
	Est confortvel?
	Mais ou menos.  No mesmo instante, Raphael mudou de posio, apoiando os cotovelos nos braos da poltrona de couro, as mos cruzadas sob o queixo, olhando Anne por cima delas.
	O almoo est pronto.
	No estou com muito apetite.  Raphael no demonstrava nenhuma inteno de se levantar.
Anne tambm permaneceu onde estava.
	Jssica disse que  seu prato preferido.
Ele sorriu.
	 mesmo? E o que ?
	Omelete com bacon e muita torrada.  No era do que Anne mais gostava, mas Jssica insistira em dizer que era o favorito do pai.
	 meu predileto, sim.  Raphael endireitou-se na cadeira, parecendo um pouco mais bem-humorado. Ao se levantar, o mau humor tinha se dissipado por completo.  Jssica vai dar uma tima esposa quando crescer.  Seguiu atrs de Anne at a cozinha.
Ela virou-se ao ouvi-lo rir.
	Qual  a graa, Raphael?
	A sua expresso quando eu disse aquilo sobre Jessy. Vamos, diga-me o que foi que eu no devia ter dito.
Anne reprovou-o com o olhar.
	No gostei do que ouvi.
	Ento, consegui.
	Est bem, Raphael. Achei um comentrio chauvinista. Surpreende-me que s espere isso sua filha.
	Que resposta! Por acaso no acha que, para a mulher, basta m bom casamento?
	E isso basta para um homem?-
Raphael parou antes  soleira.
	Se no entrarmos agora, vamos estragar o almoo de Jssica. Mas quero continuar essa conversa depois. No pense que estou me esquivando de sua pergunta, Anne.  que esse assunto  muito amplo para se responder em um minuto.
Anne j estava arrependia por t-lo desafiado. No porque no acreditasse no que tinha dito, mas porque j sabia que Raphael, quando punha uma coisa na cabea, no desistia com facilidade. Em nenhum momento achou que ele estivesse evitando responder. Aquilo era pura provocao da parte dele. Como no tinha se entendido com Margaret, estava descontando no primeiro que aparecia, ou seja: nela.
Mesmo sem fome, Raphael fez justia  omelete e s torradas, repetindo duas vezes. Com um esprito muito mais leve, fez muitas brincadeiras com as duas, mas no bastou para Anne sentir-se relaxada, pois sabia que logo depois estariam conversando.
	Estava timo.  Raphael encostou-se, satisfeito, no espaldar da cadeira.  O que mais pode querer um homem, alm de duas mulheres para servi-lo?
Outra provocao, mas Anne no ia cair na armadilha.
	O caf.  Anne sorriu com doura, colocando o bule fumegante ao lado dele.
Raphaelpercebeu que, no fundo, Anne estava louca da vida. 
	Obrigado, Anne.
	Sabe de uma coisa, Raphael?  Anne continuou sorrindo, enquanto servia Jssica. Depois, voltou a sentar-se.
 Voc  terrvel.
Raphael ficou olhando assustado para ela, ento comeou a gargalhar, uma risada sincera. S que daquela vez no era dela que estava rindo, mas do que acabara de ouvir.
	Tem toda a razo, Anne. Sou mesmo. Mas  voc quem tem o dom de me provocar. Por que ser que isso acontece?
Raphael a olhava de,uma forma sedutora, um jeito perigoso que fazia Anne preferir sua raiva, muito mais segura para sua paz de esprito.
	O que vamos fazer  tarde?
Anne demorou para registrar a questo de Jssica e perceber que era se dirigia a ela. Estava to hipnotizada por aquele olhar que no conseguiu responder.
	O que vocs gostariam de fazer?  Raphael se adiantou.
	Bem, a julgar pela nossa geladeira, acho que devemos fazer compras  Jssica falou, sem titubear.
	Vo vocs duas.  Raphael ergueu-se, pegou dinheiro no bolso e deixou-o sobre o balco.  Preciso trabalhar. Peguem um txi e no tragam muita coisa. S vamos ficar aqui dois dias. No se preocupem com o jantar. Jssica est louca para ir comer sua pizza preferida, no , filha?
	Obrigada, papai!  Feliz, a menina esperou que ele se retirasse.  No se preocupe, Anne. No sei o que est acontecendo entre vocs dois, mas no gostei do jeito como papai falou com voc. Eu sabia que ele daria um jeito de no fazer compras conosco. Tem razo, Anne. Meu pai  muito mal-humorado!
Jssica era uma menina astuta. Raphael no tinha sido indelicado, mas decerto fizera outra provocao. E por ser a nica pessoa adulta presente, Anne foi o alvo. Se Jssica no estivesse presente, ela at aceitaria o desafio.
Anne achou graa e sentiu a tenso dissipar-se.
	Vamos fazer essas compras, mocinha.
Jssica levantou-se com facilidade e nem se lembrou do tornozelo.
	Podemos comprar ingredientes para fazer uma coisa bem picante amanh. Quem sabe assim papai melhore o humor?
	Voc no devia dizer isso  Anne reprovou-a, mas, no fundo, teve de concordar.
Raphael no estava mais com aquele ar beligerante quando saram para comer a pizza  noite. Na verdade, ele mal falou, como se nem estivesse presente. Anne no sabia o que era pior: um Raphael provocativo ou quase mudo.
	Primeiro, mal-humorado; depois, no conversa  Jssica comentou com Anne na hora de dormir.  Nunca vi meu pai assim.
Anne deu de ombros como se isso no fizesse muita diferena, embora tivesse de confessar que Raphael conseguira criar um mal-estar geral.
	Ele deve estar com algum problema...
Margaret estava presente mais uma vez. Mas Anne no queria dizer isso a Jssica.
Foi at bom que Raphael no tivesse querido conversar sobre Margaret. No estado em que estava, teria sido muito penoso para Anne ouvir suas preocupaes sobre outra mulher.
	Espero que ele no viaje outra vez. Jssica sentou-se na cama com os braos em volta dos joelhos.
Anne sentiu o estmago revirar s de pensar nessa possibilidade. Raphael viajando de novo... A ltima o mantivera longe de casa por trs meses.
A ideia de no v-lo durante tanto tempo fazia-lhe mal. Era impossvel no t-lo por perto, mesmo que a provocasse tanto.
Era impressionante como seus sentimentos em relao a ele tinham mudado em to pouco tempo. Primeiro, pensou que estivesse apaixonada por Anthony. Mas era impossvel comparar a emoo fraca e inspida que nutrira por Anthony com o que sentia agora por Raphael. No dia anterior, Anne no vira a hora de viajar para ficar longe de Anthony, ao passo que se sentia pssima s de pensar que Raphael poderia viajar.
	Voc acha que ele vai?  Anne perguntou ansiosa para Jssica, sentindo os lbios rgidos.
A menina ergueu os ombros.
	No sei. Quando papai resolve, viaja e pronto.
Ento era por isso que Raphael trouxera Anne naquele fim de semana. No poderia abandonar Jssica sozinha em Londres se tivesse de se ausentar de repente. Anne sentiu o corao ainda mais pesado com essa constatao.
Anne acariciou os cabelos de Jssica e acomodou a menina nos travesseiros.
	Bem, no vamos nos preocupar com uma coisa que ainda no aconteceu, querida. Devemos aproveitar o tempo em que Raphael est conosco.  Era isso o que ela pretendia fazer.  Durma bem.
Raphael estava sentado na sala, olhando distrado para um copo de usque em sua mo, quando Anne voltou do quarto. Ele no parecia disposto a nada.
	Jssica est preocupada com voc  Anne falou com franqueza, parada  soleira.
Ele voltou-se para ela.
	 mesmo?
	Est.  Anne entrou na sala.  Est achando que vai viajar outra vez.
	No vou, no.
	Eu no disse que ia...  Sentiu um sbito alvio ao ouvir a resposta.  S disse que Jssica acha que vai.
Raphael ficou irritado.
	E por qu?
	No tenho ideia. Pergunte a Jssica.
	Por que fica rodeando em vez de me dizer que devo tranquilizar minha filha?
Era bvio que Raphael no era do tipo que gostava de se sentir manipulado.
	No estou fazendo rodeio, Raphael. Apenas lhe contei o que sua filha me disse.
	Est bem!  Impaciente, deixou o copo sobre a mesinha de apoio antes de se levantar.  Eu vou. Deus me livre das mulheres sensatas.
Anne no duvidava por nenhum momento que estivesse querendo descontar nela alguma coisa. E, se Raphael continuasse com provocao, ia ter o que estava querendo.
Que tal uma partida de xadrez?  Anne convidou-o com um sorriso, quando ele voltou para a sala.
As peas j estavam no tabuleiro, a um canto. Anne aproximou a mesa e colocou-a entre as duas poltronas.
Se Raphae queria briga, aquela era a maneira mais segura de atend-lo. Alm disso, ficaria concentrado no jogo, e no remoendo seus pensamentos.
	A menos que tenha outro compromisso...  ela acrescentou, pensando melhor. Mas uma coisa era certa: com Margaret ele no iria se encontrar.
	No  nada que no possa esperar.  Sentou-se na frente dela.  Voc joga bem?
	Joguei apenas algumas vezes.
	Otimo!  Mais uma resposta beligerante.  Ento, comece.
Anne sentiu a raiva tingir suas faces.
	Costuma-se atirar-se uma moeda para o alto para ver quem  o primeiro.
Ele abriu a boca para dar uma resposta, mas alguma coisa o fez desistir.
	Estou com um humor terrvel, no estou, Anne?
	Est.
Ele riu, o olhar tornando-se mais suave.
	Ao menos voc  sincera!
Anne retrucou, desafiando-o:
	Por ser mulher?
	Meu Deus, fui muito grosseiro o dia todo, tenho de admitir. Basta pedir desculpas, ou devo me ajoelhar e implorar por seu perdo?
Anne no pde evitar um sorriso ao v-lo to arrependido.
	Por que no jogamos primeiro? Depois, se ainda tiver vontade de se desculpar...
	Nossa, voc  to boa assim?
Anne no respondeu. No era nenhuma campe, e no jogava havia muito tempo. Mas iria venc-lo naquela partida a qualquer custo.
Primeiro, ganhou ao atirar a moeda para cima. Ento, comearam.
Na meia hora que se seguiu, no disseram mais nada, ambos concentrados nos movimentos das peas. O resultado foi um empate.
	Voc joga bem, Anne.
	Obrigada.
Raphael recostou-se na poltrona e fixou os olhos nos dela.
	Desculpe-me pela maneira como me comportei o dia todo. E que... sabe, Anne, voc  mulher... Eu disse alguma coisa engraada?  Raphael franziu as sobrancelhas ela esboou um sorriso.
	De maneira alguma!
	E que hoje voc foi alvo de todos os insultos que se pode dirigir a moa.
	Nem todos  brincou. Havia mais alguns que ele no havia mencionado.
	Pelo menos todos que so relevantes a meu problema. Diga-me, por que uma mulher quer falar com voc ao telefone, mas no pessoalmente?
"Ah, ento Margaret no quis receb-lo! E depois disso, ficou rosnando como um leo enjaulado." Anne ergueu os ombros, com indiferena.
	Por vrias razes.  Ela moveu uma pea no tabuleiro.
Os olhos dele se estreitaram.
	Tais como?  Raphael moveu outra pedra.
	Foi a voc que essa jovem recusou-se a ver?
	O que isso tem a ver? Foi  confessou, impaciente.
	Nesse caso, posso pensar num bom motivo para no querer v-lo.
	Qual ?
Anne moveu-se, incomodada, na poltrona, achando que tinha ido longe demais. Mas Raphael tinha perguntado, e sua resposta seria sincera:
	Voc  muito... Consegue ser to...
	Diga logo, Anne! Sou o qu?
	 meu patro, Raphael. E gosto muito de meu trabalho.
	Esquea isso e responda ao que perguntei.
	Trabalho para voc  ela insistiu.  No acho justo que me questione sobre isso.  A honestidade tinha seu lugar, e Anne no estava certa de que seria entre patro e empregada.
	Esquea a justia. Diga logo por que se recusaria a encontrar-se comigo.
	Por isso mesmo  Anne disse, corajosa.
	Isso o qu? Por obrig-la a dar uma resposta?
	Certo  Anne confessou, aliviada. Afinal, no tinha sido ela a provocar essa briga.  Se voc me tratasse assim ao telefone, eu desligaria no mesmo instante.  bem provvel que o mesmo tenha acontecido com essa mulher.
Raphael ainda no tinha falado em Margaret, mas Anne sabia que era ela. O que a deixava to magoada era o fato de estar to claro que ele queria falar com a ex-bab de Jssica.
	Foi o que ela fez  Raphael confessou.  No quis me ver quando fui procur-la em sua casa. Depois, quando telefonei mais tarde, bateu o fone ao saber que era eu.
	Como voc mesmo disse, Raphael, seu humor estava um pouco agressivo hoje. Xeque-mate.
A surpresa dele foi tanta que Anne no pde evitar o riso. Devia ser a primeira vez na vida que perdia uma partida de xadrez.
	No fique assim, Raphael. O orfanato em que vivi podia comprar tabuleiros... e em dezesseis anos passei muitos dias frios e chuvosos l dentro.
Anne no tivera uma infncia infeliz. Faltara-lhe talvez um pouco mais de amor, mas nada que pudesse chamar de infelicidade.
Primeiro, Raphael olhou-a com admirao e em seguida para as peas.
	Belo jogo, Anne! Voc  uma excelente adversria.
No era o que ela queria ser depois de uma viagem to agradvel ao lado dele e dos beijos que tinham trocado.
	Chega de jogar.  Raphael levantou-se e levou a mesa de volta para o canto. Voc tem razo. Fui muito grosseiro o dia todo. E tambm sei que voc no me disse isso. Mas fui mal-educado, sim. Bom, mas isso acabou. E se quiser servir um conhaque para ns, vou acender a lareira.
Conhaque e lareira... Anne no gostava de conhaque, mas de uma lareira... Mas era algo ntimo demais para compartilhar com o prprio patro.
	J  um pouco tarde para isso, Raphael. Ainda mais se levarmos em conta que acordei to tarde esta manh.
	Que eu saiba, voc no teve nenhum tempo livre nos ltimos dias. Est aqui para descansar, no apenas para cuidar de Jssica. No gostaria de visitar seus amigos?
Talvez fosse mesmo mais seguro do que ficar ao lado dele naquela sala.
Porm, Anne no queria segurana. Isso ela tivera a vida toda, e no desejava mais.
	Prefiro dormir cedo, Raphael. Vou servir-lhe o conhaque.  Estar sbria ao lado dele tornara-se algo de suma importncia.
Raphael sentou-se ao lado de Anne no sof.
	No h nada como o fogo. Essa lareira foi uma das coisas que me atraiu neste apartamento.
Anne concordava, sem dvida. Era muito sedutor estar ao lado do homem que amava e olhar o bailado das chamas. Raphael relaxou e deitou a cabea no encosto do sof.
	Que coisa boa!  murmurou.
Aquela no era a definio que Anne daria  situao.
Ela devia estar em seu quarto. Ou ter sado. Tudo, menos ficar ao lado dele naquele ambiente aconchegante. Porque o que mais queria agora era poder beij-lo.
Como se lesse seus pensamentos, Raphael virou-se para Anne, um olhar profundo, o brilho do fogo refletido em seus olhos.
	E a companhia  melhor ainda.
Anne sentiu um calor em seu rosto que nada tinha a ver com as chamas.
	Estou falando srio, Anne.  Raphael pegou a mo dela.  Voc no  mulher de ficar falando qualquer coisa. Quando diz algo  porque tem alguma coisa a dizer. Se no, fica quieta.
Anne sabia que devia afastar-se, pois estava correndo um srio perigo. Mas no queria isso. Amava aquele homem e talvez nunca mais pudesse ficar assim ao lado dele.
	Voc gosta disso numa jovem?
Raphael sorriu.
	Nenhuma outra me atraiu tanto, Anne. E adoro o sexo oposto. O que estava tentando lhe dizer, e talvez no esteja conseguindo,  que voc  especial para mim.
Anne recuou, mas no conseguiu afastar-se. Na verdade, Raphael estava mais prximo que nunca.
	Que olhos, Anne! Quero tanto estar dentro deles!
Anne mal conseguia respirar. Quando os lbios de Raphael aproximaram-se dos seus, ela tambm os quis. E por isso entregou-se com paixo s deliciosas sensaes que lhe despertavam, os braos que a enlaavam com fora, o perfume daquela boca que buscava a sua com avidez.
Quando Raphael procurou seus seios, o calor que ela sentia estava se tornando insuportvel. Eles reagiram de imediato s carcias, ficando rijos e muito mais sensveis.
De repente, um gemido saiu de sua garganta quando um forte arrepio percorreu todo seu corpo e suas mos apertaram com fora os ombros dele.
Anne no ofereceu resistncia quando Raphael deitou-a no sof e acomodou-se a seu lado, entrelaando as pernas nas suas, abrindo a blusa e acariciando-lhe as costas. Os olhos mostravam intenso desejo ao fitarem o suti acetinado e a pele por baixo dele, macia e sedosa como o tecido.
Anne seguia com o olhar as mos que exploravam seus seios, a volpia estampada no rosto de Raphael, e sentiu uma enorme satisfao de alegria por saber que era por sua causa.
	Eu quero voc, Raphael. Quero voc!
Ele levantou-se, sorrindo, e ergueu-a nos braos.
	Venha. Minha cama  maior que a sua.
Raphael levou-a no colo como se nada pesasse, empurrou a porta do quarto com a ponta do p e a fez deitar-se. Em seguida, ajoelhou-se no tapete e, devagar, comeou a tirar as roupas, dobrando cada pea com muito cuidado e deixando-as a seu lado no cho.
Anne s percebeu o que estava acontecendo quando se viu nua, sendo beijada e acariciada em todas as suas curvas. E via nos olhos dele um profundo prazer.
	Tire a roupa tambm, Raphael.
Quando ele a ob.edeceu, Anne no se decepcionou. Raphael era bonito, a pele bronzeada, o corpo firme, o peito largo, quadris estreitos, pernas musculosas cobertas com os mesmos caracis negros que cobriam o trax. Nu, com os cabelos longos cados nos ombros, lembrava um guerreiro de outros tempos. Anne queria ser sua prisioneira e conhec-lo por inteiro.
Quando Raphael deitou-se a seu lado, ela sentiu a promessa da posse pulsando entre suas coxas.
Ele comeou a beij-la outra vez, os seios, as pernas, fazendo-a gemer de prazer e vontade. Ento, seus gemidos transformaram-se em soluos provocados por um prazer que Anne jamais conhecera. Era uma loucura, um redemoinho de emoes que percorriam seu corpo dos ps  cabea.
Ela olhou, maravilhada, para Raphael quando ele voltou a deitar-se, beijando com delicadeza seu rosto quente.
	Eu nunca... eu... Oh, Raphael!  Anne o abraou com ternura.
Raphael ergueu a cabea devagar.
	Voc nunca fez amor com ningum, Anne? Ou apenas nunca sentiu o prazer que estou lhe dando?
	Ambas as coisas.  Sentia-se um pouco envergonhada. Era to inocente, nem imaginava como era, no sabia de nada.
Raphael sorriu.
	Ento sinto-me feliz e muito honrado de ser o primeiro.  Raphael afastou os cabelos das faces dela e beijou-a de leve nos lbios.  Acho melhor voc se cobrir e dormir um pouco.
Anne no entendeu.
	Mas voc... ns no... Voc no vai...
Raphael ajoelhou-se ao lado dela e tocou de leve seu rosto.
	No estou prevenido, Anne, e duvido muito que voc esteja. No quero que nossa primeira noite juntos seja motivo de futuras preocupaes.  Cobriu-a com o cobertor antes de voltar a deitar-se a seu lado e aninh-la entre seus braos,
Anne no tinha nenhuma dvida de que Raphael a queria tanto quanto ela o desejava. E estava negando a si mesmo uma noite de amor por causa de sua inocncia.
Ela tambm q abraou e encostou-se no corpo forte. Anne o amava. Teve absoluta certeza disso naquele instante. Feliz, adormeceu.

CAPITULO IX
Anne ficou muito confusa quando acordou na lanha seguinte, no na cama de Raphael ou em seus braos, mas em seu prprio quarto, em seu leito, e sozinha.
Raphael devia t-la levado durante a noite. Soerguendo-se, viu que suas roupas estavam dobradas, inclusive a blusa e o suti, sobre a poltrona.
Jssica... Anne no se lembrou, mas Raphael devia ter pensado na menina, que no deveria encontr-los dormindo lado a lado quando acordasse.
Espreguiou-se, sentindo o corpo diferente, ainda guardando a sensao de prazer que as mos e os lbios de Raphael haviam lhe proporcionado. A nica coisa de que se arrependia era no ter se entregado por completo a ele. Mas isso ainda iria acontecer.
Como Raphael se comportaria depois de tudo o que houvera entre eles? Voltariam a ter uma relao de patro e empregada? Ou ele demonstraria, no olhar, as lembranas das delcias que tinham vivido na vspera? Ah, como Anne desejava isso! Porque, quanto a ela, jamais iria esquecer-se do que sentira. Mas tambm no gostaria que Raphael no recordasse nada.
 Trouxe ch para voc  Jssica anunciou, alegre, entrando, depois de bater. Deixou a xcara sobre a mesa-de-cabeceira e sentou-se na cama, perto de Anne.  Fique tranquila, no foi meu pai quem fez. Ele saiu.
Anne levou um susto quando olhou para o relgio. Mais uma vez tinha acordado depois de Jssica. Porm, agora, por sorte, no passava de oito e meia. Aonde teria ido Raphael to cedo em pleno domingo? Decerto, no fora assistir  missa. Anne lembrou que estava nua sob os lenis quando ia sentar-se para tomar o ch. Ento, cobriu-se para esconder-se de Jssica.
	Aonde Raphael foi?  perguntou, como quem no estava interessada, entre um gole e outro.
Jssica no sabia.
	Papai ligou para algum e depois saiu. No disse para onde. Nem quando voltava.
Margaret... s podia ser!
Anne fechou os olhos para esconder a dor que, com certeza, no conseguiria disfarar. Talvez tivesse se enganado. Raphael no desistira de fazer amor com ela s porque era virgem. Devia haver uma razo diferente: ele estava pensando em outra pessoa.
Decerto fora procurar Margaret to logo amanheceu. Anne estava to certa disso que nem precisava questionar.
	Est se sentindo bem, Anne? Devia ter sido mais delicada para acordar voc?
No, no era nada disso, o problema era outro. Anne estava sonhando com Raphael e em como seria viver com ele. Que bobagem! Quanta infantilidade! S porque um homem faz amor com algum no quer dizer que queira viver com aquela pessoa. J devia saber que o que mais acontecia era justo o contrrio. O exemplo de sua me no bastava? Tal como seu pai fizera, Raphael no tinha ido atrs de Margaret?
Anne deu um suspiro contido, abriu os olhos e sorriu para Jssica. A ltima coisa que desejava era que a menina percebesse sua angstia. Se isso acontecesse, Jssica no hesitaria em comentar com o pai, e Raphael saberia como Anne estava se sentindo.
 Precisava reagir como uma pessoa adulta. Afinal, o que acontecera de concreto entre ela e Raphael? Para Anne, tinha havido tudo. Mas, para Raphael, to experiente, era provvel que no tivesse sido quase nada. Ela era mais uma conquista, nada mais que isso, algum com quem quiser dividir sua cama. Porque a pessoa que Raphael desejava no aceitaria isso.
No entanto, tudo mudaria quando Raphael voltasse. Anne no deixaria que ele pensasse que o que acontecera entre os dois tinha sido mais importante para ela do que foi para ele.
	No, voc no me acordou de maneira brusca, querida. Gostaria de comer algumas panquecas?  Anne sabia que Jssica adorava panqueca e que a resposta seria evidente.
 Preciso de dez minutos para me levantar e encontrarei com voc na cozinha.
	Eu vou providenciar os ingredientes!  A menina pulou da cama, muito animada, e saiu do quarto.
Anne voltou a se deitar quando se viu sozinha. Por que no tinha a mesma energia de Jssica? Mas a manh lhe trouxera de volta uma dura realidade: a noite anterior tinha sido apenas um sonho.
E se tivesse sido mesmo? E se nunca tivesse dividido o leito com Raphael?
Porm, ao se levantar, Anne viu que no tinha sonhado. Seus seios estavam um pouco inchados depois das carcias que Raphael lhe fizera, os msculos de suas coxas, que antes nem sequer eram percebidos, tambm estavam doloridos. O corpo parecia em letargia. Anne preferia que nada disso estivesse acontecendo, mas era impossvel negar.
E, quando Raphael voltasse, teria de enfrent-lo depois do que ambos tinham experimentado na noite anterior.
Jssica adorou as panquecas, mas Anne s conseguiu beber caf. Na segunda xcara, ouviu a porta do apartamento se abrir. Sentiu-se enregelar ao ouvi-la se fechar. Estava sentada de costas, bebendo a segunda xcara para sentir-se mais desperta e, se possvel, com um pouco mais de coragem. Porm, isso de nada adiantou quando Raphael apareceu. Anne sentiu um frio no estmago, e sua mo tremeu.
	Pai!  Jssica sorriu, alegre, nem se lembrando mais do tornozelo machucado.
Anne permaneceu imvel. Mas sabia que teria de fazer alguma coisa, ou Raphael notaria que algo estava errado.
Melhor no demonstrar que o que partilharam tinha sido to importante para ela. Afinal, havia seu orgulho a preservar. Anne respirou fundo, tentou acalmar-se e virou-se devagar, mas encolheu-se ao ver a expresso no rosto dele. Esperava ver que Raphael estava arrependido, mas nada disso aconteceu.
	De quanto tempo vocs precisam para voltarmos  Casa do Penhasco?
Anne foi pega de surpresa, tanto pela frieza da voz quanto pela pergunta. No dia anterior, Raphael tinha falado em comprar comida para mais dois dias. Agora, queria viajar de imediato. O que poderia ter acontecido para mudasse to rpido de planos?
Por sua expresso arrogante e distante, no adiantaria indagar.
	A Casa do Penhasco?  Jssica ficou desapontada.  Mas, pai, voc disse que...
	Eu sei o que disse, Jssica. Mas mudei de ideia. Vamos voltar hoje.
Raphael no dirigiu o olhar a Anne quando comunicou essa sbita deciso, mas alguma coisa muito sria devia ter acontecido. Na certa no planejava levar para a cama a bab de sua filha. A bem da verdade, j era a segunda.
Anne tambm no tinha planejado nada. Era a ltima coisa que esperava que acontecesse no fim de semana. Por essa razo, tambm no via a hora de voltar. Seria horrvel ficar mais dois dias naquele apartamento, tentando ser gentil para que Jssica nada percebesse.
	Estaremos prontas em quinze minutos, Raphael  Anne respondeu, fria, mas sem encar-lo. Era impossvel enfrentar o olhar de Raphael.
	Em meia hora, ento  Raphael determinou.  Mas antes quero tomar uma xcara de caf para estar bem desperto para dirigir.
	Vou fazer as malas.  Anne no se ofereceu para fazer mais caf. Se no sasse da cozinha j, acabaria chorando e fazendo papel de tola.
	Anne.  Raphael segurou-a pelo brao quando ela estava saindo.  Voc est plida.
"Porque a noite anterior foi muito especial, maravilhosa e mgica! Adormecer em seus braos foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. E por um instante, apenas por um instante, imaginei que seria assim para sempre."
Quanta ingenuidade! Fora apenas uma vez, e nada mais. Pensando bem, Raphael no tinha ido at o fim apenas por tratar-se de uma pessoa inexperiente, e no por ser virgem. No se tratou de delicadeza, e sim de falta de interesse por uma virgem sem expresso.
	Precisamos conversar, Anne.
	Acho que no  retrucou, agora bem mais calma, soltando-se.  Seria algo sobre a viagem?
	No, Anne. Quero pedir desculpas por ter sado to cedo e...
	S pode ter sido para tratar de negcios  ela o interrompeu, olhando para Jssica pelo canto dos olhos, em sinal para que ele se calasse.
	No eram negcios. Mas era importante. Ainda . Est tudo bem com voc?  Eaphael parecia preocupado de verdade.
Anne achou que no iria resistir. Ele a olhara da mesma maneira na vspera, quando seus toques e suas carcias fizeram-na quase derreter em seus braos.
	Est tudo bem comigo, Raphael.
Tinha medo de no conseguir ocultar o sofrimento em seu rosto, as leves olheiras ao redor dos olhos por no ter dormido o suficiente, os lbios trmulos para conter as lgrimas que insistiam em cair.
	No acredito, Anne. Meu Deus, que tremenda confuso!
 Passou os dedos pelos cabelos.  Tenha pacincia at eu conseguir resolver tudo isso.
"At decidir o que sente por Margaret, isso sim! No basta ter ido procur-la logo cedo? Nada disso tem a ver comigo: o fato  que estou apaixonada e o perdi."
Nada mais havia para se dizer. E nada do que fosse dito mudaria isso.
Mais uma vez, Anne se afastou.
	Todo o mundo comete enganos, Raphael. Esquea o que aconteceu ontem.
	E isso o que acha? Que foi um engano?
	Sem dvida!
Anne arrependia-se de ter sido to ingnua. Chegara a acreditar que, entregando-se a Raphael, tudo ficaria bem entre eles, mas agora sabia que um homem podia ter relaes com uma mulher e amar outra. As emoes masculinas nem sempre acompanhavam seus instintos.
Raphael recolheu-se, agora muito srio, indecifrvel.
	Jssica, v ajudar Anne a guardar o que voc quiser levar.
	Quer dizer que vou  escola amanh?
Raphael sorriu ao olhar para a filha.
	Vai, sim. J est andando muito bem e poder brincar, sem problemas.
	Ah, pai...
	Vamos, Jssica  Anne encorajou-a.  Pense que vai poder contar a Lucy como foi seu fim de semana.
	 mesmo  a menina concordou de m vontade, mas atravessou a cozinha com toda a facilidade.
Anne levou menos de dez minutos para juntar suas coisas, mas, como Raphael pedira meia hora, aproveitou o tempo para se maquiar um pouco e disfarar a palidez. O resultado foi bom: ao menos perdera aquela aparncia de quem estava prestes a adoecer.
Mas a decepo era indisfarvel. Isso no havia cosmtico que pudesse resolver.
A viagem de volta foi feita quase toda em silncio. Jssica adormeceu, como sempre, no banco de trs, Raphael ficou impassvel, perdido em seus pensamentos, e Anne, mergulhada em seu sofrimento particular.
Anne nunca imaginou que ficaria to aliviada ao vislumbrar as linhas gticas da Casa do Penhasco quando entraram na estrada. Isso no aconteceu nem no primeiro dia em que ali chegara.
Mas parecia fazer tanto tempo...
Muita coisa acontecera em dois meses. Anne achou que tinha se apaixonado, mas viu que Anthony no era quem pensou que seria. Depois, apaixonou-se de verdade pelo homem com quem sonhara por toda a vida. S que ele estava apaixonado por outra.
Raphael parou o carro e, no mesmo instante, Anne saiu para ajudar Jssica a descer.
	Vocs podem entrar. Eu levo as malas.  Raphael ainda ficou no automvel.
Ele nem precisava dizer aquilo, pois Anne no via a hora de ir para dentro. Por mais difcil que fosse, pretendia ficar o mais longe possvel, enquanto Raphael estivesse l. Se no o visse, talvez a tristeza passasse.
Clia estava passando pelo hall de entrada quando Anne e Jssica abriram a porta. As sobrancelhas erguidas foram o nico sinal de que* estava surpresa por v-las.
	Ah, vocs esto de volta! No os esperava to cedo.
	Raphael tem alguns compromissos  Anne prontificou-se a informar.
	Ele est com vocs, suponho. Ou ser que ficou em Londres?
	No, Clia, estou aqui  Raphael disse, frio.
Clia olhou para o enteado da mesma maneira.
	E qual dos empregados pretende demitir desta vez?
Raphael estreitou os olhos.
	Est se referindo a James?
	Estou, Raphael.
	Agora voc errou, Clia. No demiti James. Ele decidiu que era hora de se aposentar.
	E mesmo? Assim, sem mais nem menos?
Raphael suspirou.
	Foi James quem decidiu. Acha que o acidente de Jssica foi culpa dele, e, depois que conversamos, acabei concordando...
	Acho que devemos ir para a sala conversar em particular.
Longe de Anne, uma criada. Mas se fosse verdade que James se demitira porque sentia-se responsvel pelo acidente de Jssica...
	James foi embora?  Jssica perguntou quase chorando.  Papai...
	Foi o que acabei de dizer a sua av.  Raphael virou-se para Clia com um olhar de censura por ter dito aquilo na frente da menina.  Ele acha que foi responsvel por seu acidente, por no ter checado se a sela estava bem presa.
	Eu tambm devia ter visto isso. Foi voc quem me ensinou. E eu...
	Jssica, vamos levar nossas coisas para cima e deixar seu pai e sua av conversarem.
	Mas...
	Voc pode telefonar para Lucy e dizer que vai  escola amanhAnne acrescentou, para tentar convencer a menina.
	Est bem, Anne. Vejo voc depois, pai.
	Certo, filha. Anne?  Raphael a fez parar no meio da escada.
Anne virou-se devagar, j prevendo o que ele ia dizer. Raphael sorriu, no aquele sorriso irnico to conhecido, mas muito mais carinhoso.
	Mais tarde vamos conversar.
Anne no entendeu. Apenas olhou para Raphael, sem dizer nada.
	Estarei no quarto de Jssica,-Raphael.
Elas subiram os degraus. Ao chegar aos aposentos de Jssica, Anne sentiu-se bem melhor. Enfim, conseguia respirar com liberdade, pela primeira vez, desde que acordara naquela manh.
O que devia fazer? Fizera aquela pergunta a si mesma milhares de vezes desde que acordara. Mesmo que Raphael viajasse, uma hora acabaria voltando. E ento teria de enfrent-lo outra vez. O amor que estava sentindo por ele era um sentimento novo, que Anne no conhecia. E no voltaria a sentir. Mas Raphael estava apaixonado por outra mulher, que no o amava da mesma maneira.
	Posso descer para telefonar para Lucy?
Anne olhou, distrada, para Jssica e s ento se deu conta de que j tinham desfeito as malas e guardado todas as roupas. Tudo pronto, a menina queria agora falar com sua amiga. S que Arme no sabia se Raphael e Clia ainda estavam na sala.
	Telefone de meu quarto, querida. L, poder falar com Lucy tempo que quiser.
Jssica gostou muito da ideia e foi para o dormitrio de Anne.
Mais uma vez sozinha, Anne poderia pensar melhor.
Se Margaret ainda estava em Londres, e Raphael queria tanto que ela voltasse para ele, por que teria retornado?
Teria mais sentido se Raphael preferisse ficar s na cidade, longe de Anne. Ainda mais depois do que acontecera entre eles na noite anterior.
Tinha sido mesmo na vspera? Parecia tudo to irreal, quase um sonho, ou melhor, um pesadelo! Porque era nisso que tudo havia se transformado.
Anne sabia que no poderia ficar no quarto de Jssica para sempre, remoendo-se. J estava tudo guardado e no havia mais nenhuma razo para continuar l. Beber um xcara de caf no seria m ideia.
Mas e se Raphael e Clia ainda estivessem perto da escada?
Claro que no estavam. Clia jamais teria uma conversa particular com o enteado onde os empregados pudessem ouvi-los. E, pela raiva que se via no semblante de ambos, o assunto s poderia ser particular.
Anne estava certa. No havia ningum perto dos degraus, no se ouviam vozes em nenhum lugar da casa. Pelo menos, ningum estava gritando.
	Anne! Graas a Deus  Raphael apareceu agitado  porta da sala particular de Clia.  Ligue para a emergncia e pea uma ambulncia agora mesmo!
Anne no entendeu a princpio. O que houvera? Com quem? A briga teria sido to feia?
Isso no, era impossvel. Raphael jamais usaria de violncia contra uma mulher. Mas ento...
	Anne, chame a ambulncia!  ele repetiu, aflito.  Acho que Clia teve um enfarte!

CAPITULO X

No foi preciso falar duas vezes. Anne saiu correndo para o telefone e surpreendeu-se com a calma com que Raphael descreveu em detalhes o problema de Clia, exatamente como tinha sido. A telefonista garantiu que a ambulncia seria enviada de imediato e chegaria em poucos instantes.
Anne desligou, correu para a sala de estar de Clia e encontrou Raphael ao lado dela no sof. Clia estava deitada, muito plida, e parecia ter envelhecido nos ltimos minutos. Toda sua empfia desaparecera, deixando-a com uma aparncia vulnervel.
	O que houve?  Anne perguntou em voz baixa, aproximando-se de Raphael.
	Estvamos conversando... discutindo, para dizer a verdade. Mas ns dois sempre nos falamos assim. S que desta vez Clia perdeu a cor e caiu.
Anne ajoelhou-se ao lado dele.
	Sobre o que vocs conversaram?
	Sobre Anthony. O que mais poderia ser?
Anne ps a mo no rosto de Clia, que estava muito frio.
	Ela gosta muito dele. Orgulha-se do filho.
	Anthony  insensvel e egosta, Anne.
	Mas  filho dela, Raphael. E as me sempre perdoam os filhos.
	Eu no sabia que era tanto assim.
Anne olhou para Raphael com uma sombra nos olhos azuis.
	Nem eu, Raphael. Mas tenho certeza de que, se tivesse um filho, eu o protegeria da mesma maneira que Clia protege Anthony. Ou como voc cuida de Jssica.
Uma veia pulsou na testa de Raphael, que se levantou e foi para a janela.
Anne perguntou-se o que ele teria ido olhar l fora, ou se seria apenas para evitar ver Clia deitada naquela sof. Talvez tivesse sido por isso. Raphael continuava nervoso. E toda a sua raiva se voltava contra Anthony.
	A ambulncia chegou  Raphael disse, de repente, voltando para a sala.  Vou ao hospital com Clia enquanto voc fica aqui esperando Anthony voltar. Ele foi levar Davina a Londres esta manh, mas voltar depois do almoo.
A ideia de acompanhar Clia fazia sentido. Ela era sua madrasta, e seria melhor que Raphael a acompanhasse. Mas o fato de ficar ali esperando Anthony voltar no deixava Anne muito tranquila.
Ela no revelou sua preocupao enquanto os enfermeiros levavam Clia para a ambulncia. Raphael observava tudo a seu lado.
E ento, a ambulncia, com Raphael e Clia dentro, foi embora, e uma estranha calma voltou a reinar naquela casa. Estranha, porque decerto no prenunciava nada de bom.
Anne se encarregou de dar a notcia a todos os empregados e tambm a Jssica, que voltou muito animada do quarto aps ter falado com a amiga.
	Vov vai morrer?  Jssica quis saber, quase a ponto de chorar.
Seria muito mais fcil dizer que no e rezar para que fosse verdade. Porm, Anne no podia fazer isso, pois no sabia qual era a gravidade do estado de Clia.
	No sei, Jssica.
	Meu av morreu quando eu era pequena.
Anne apertou a mo da menina para tranquiliz-la.
	Eu sei.
	Minha me tambm.
Anne sentiu o corao apertado ao ouvir a dura realidade de uma garota to pequena: sua me tambm morrera e a deixara sozinha. No fim, todos morriam. Era um fato da vida que ningum poderia negar.
	Vamos torcer para que sua av fique boa.
Jssica mordia o lbio para no chorar.
	Minha me saiu num barco com tio Anthony e nunca mais voltou.
Anne levou um susto. Joana e Anthony? Teria sido quele acidente que Raphael se referira no ancoradouro? Joana e... Anthony?!
	Isso no quer dizer que Clia no vai voltar do hospital, Jessy.
	Vamos poder visit-la?
	Se seu pai achar que sim  Anne respondeu de forma evasiva, pois no sabia qual era a gravidade do estado de Clia.  Vamos jogar uma partida de xadrez enquanto esperamos por alguma notcia. Raphael me disse que voc joga muito bem.
Jssica olhou para Anne de um jeito que a fez lembrar-se de Raphael.
	Papai me disse que voc joga melhor que ele.
Anne riu.
	Ele no estava muito concentrado na noite em que jogamos.
	No me importo quando perco. Papai me disse que  uma boa experincia.
	 mesmo?  Anne duvidava muito que Raphael acreditasse nisso.
	Acho que ele no pensou assim ontem  noite. Ainda no consigo acreditar que voc tenha ganhado dele. Acho que at hoje ningum conseguiu.
Anne concentrou-se na partida, e seu sorriso desapareceu, pois sabia que nunca mais jogaria com Raphael. Que jamais voltaria a ficar a ss com ele.
Mas pelo menos o jogo ajudou a distrair a cabecinha de Jssica. Era muito triste que uma criana to pequena j tivesse lembranas to tristes. Alm do fato de sua me ter morrido de uma maneira trgica: afogada. Era, sem dvida, uma maneira muito triste de morrer.
Mas ao menos Anne sabia agora que no fora Joana quem se suicidara no ancoradouro.
Ento, talvez tivesse sido a me de Raphael.
Anne envolveu-se com muita rapidez na vida e nas emoes daquela famlia fadada  infelicidade. Anthony pretendia casar-se, mas no tinha inteno de ser fiel a sua mulher. Esperava de todo o corao que Raphael estivesse certo e que achasse com sinceridade que seus familiares no serviam de exemplo para ningum.
Anne conseguiu vencer Jssica com facilidade, embora percebesse, pelas jogadas, que a menina ainda seria muito boa no xadrez.
	Voc acha que meu pai vai telefonar para nos dar notcias de vov?  Jssica perguntou enquanto guardavam as peas.
	Esperemos que sim.  Anne levantou-se.  Venha, vamos procurar alguma coisa para comer.
O telefonema to esperado s chegou no meio da tarde.
	Clia est acordada agora.  Raphael parecia muito preocupado.  No foi um enfarte, mas ela dever ficar no hospital mais alguns dias. Estou providenciando um quarto particular para minha madrasta, e em seguida voltarei para casa.
Ele fora muito evasivo. Se no fora enfarte, o que poderia teria sido? Por que Clia teria de ficar hospitalizada? Seria apenas para observao?
Mas Anne estava mais preocupada com Jssica, que no saa de seu lado, com muito medo de que sua av fosse morrer.
	Jssica quer ver Clia.  Anne esperava que Raphael percebesse a ansiedade da filha.
	Hoje  impossvel. Talvez amanh, quando Clia estiver mais... recuperada.
Ele parecia estranho, nada confiante como costumava ser. Talvez tivesse percebido que gostava mais de sua madrasta do que imaginava.
	Por favor, Raphael, diga a Clia que gostamos muito dela e que desejamos sua rpida melhora.
	Farei isso. Pelo visto, Anthony ainda no chegou, no ? No, no tinha voltado. E Anne sentia-se melhor por isso.
A ltima vez que o vira no fora muito agradvel, e ela no estava animada a ter de dar a notcia sobre sua me.
	No, Raphael.
	Otimo. Tentei ligar para Davina para ver se o encontrava, mas ele j tinha sado.
O que significava que Anthony chegaria a qualquer momento. Anne sentiu-se mal ao pensar que tornaria a v-lo. A ltima vez que conversaram ele tinha lhe proposto que fosse sua amante.
	Anne?  Raphael ainda estava na linha.
	Sim?
	No v morrer de pena de Anthony s porque a me dele no est bem. Anthony continua sendo um cretino, e no vai mudar.
Anne no gostou do comentrio. Tinha se comportado como uma tola em relao a Anthony, mas no era uma idiota completa.
	Eu vou me lembrar disso, Raphael. Mais alguma coisa?
A risada que ouviu do outro lado no era o que gostaria de ouvir. Como ele ousava fazer uma coisa assim? Porque no havia nenhuma dvida de que "estava achando muita ! graa.
	Voltarei logo, Anne. Esquente a cama para mim.
Anne afastou o fone do ouvido, como se tivesse levado um soco. Sofrera o dia todo pelo que tinha acontecido entre eles na vspera, e agora Raphael fazia brincadeiras a respeito!
	Anne? O que aconteceu? Por que desligou to de repente?  Jssica olhava preocupada para ela. A menina tinha se assustado com seu comportamento.
	Seu pai est providenciando um quarto no hospital para sua av.  Anne sorriu, ajeitando a franja de Jssica sobre a testa.  Mas est tudo bem. Raphael voltar logo.
Mas o que Anne mais temia agora era encontrar Anthony. E Raphael...
	Ah, minhas lindas garotas!
Seu pensamento materializou-se a sua frente. Anthony estava parado diante da porta da biblioteca, onde Jssica e Anne se encontravam. Com seu sorriso mais sedutor, ele estava mais lindo e charmoso que nunca. Pelo jeito, j no se lembrava mais da ltima conversa que tivera com Anne, antes de ela viajar para Londres com Raphael. Ou talvez fosse apenas arrogncia pensar que a conversa no tinha sido importante e definitiva.
	Tio Anthony!  Jssica correu para os braos dele. 	Que bom que voc chegou.
	Bem, pelo menos algum fica feliz em me ver!  Olhou para Anne por cima do ombro da sobrinha.
	Sua me est no hospital.  Anne no pretendia dar a notcia de maneira to brusca, mas foi como aconteceu.
	Raphael est l com ela.
	Hospital?  Anthony repetiu, devagar, colocando Jssica no cho e olhando fixo para Anne.  Mame no hospital?
	Ela teve um... Clia desmaiou logo depois que chegamos de Londres.
	E onde estava Raphael quando aconteceu esse desmaio?  Anthony parecia muito preocupado.
	Meu pai estava conversando com vov.
	Miservel!  A raiva de Anthony explodiu pela boca e pelo olhar furioso.
Anne voltou-se para Jssica.
	Est esfriando, meu bem. Voc poderia ir at meu quarto e trazer meu xale?  pediu-lhe, com um sorriso nos lbios.
	Mas...
	Por favor, Jssica  ela insistiu com firmeza.
A menina saiu da biblioteca com relutncia, mas a obedeceu. Anne esperou que Jssica se afastasse para falar com Anthony.
	Eles estavam conversando, e Clia sentiu-se mal. Raphael acabou de ligar do hospital.
	Qual?
	No sei.  Esquecera-se de perguntar, e s agora se dava conta disso.  Mas sua me est bem. No foi enfarte nem ataque cardaco. Est em observao por enquanto, ficar internada mais alguns dias.
Raphael tinha deixado-a to irritada ao telefone que s agora estava conseguindo perceber que nada sabia sobre o estado de Clia.
	Raphael voltar logo, Anthony.
Havia poucos minutos, no queria que Raphael retornasse. Mas agora desejava demais que ele estivesse ali.
	Seria melhor para todo o mundo que Raphael no voltasse nunca mais!  Anthony afirmou, furioso.  Toda vez que ele vem, nos traz problemas. Voc j deve ter notado os estragos que meu irmo consegue fazer.
	Jssica est voltando  Anne preveniu-o quando ouviu a menina descendo a escada.  Por favor, no esquea que ele  pai dela.
Anthony deu uma risada desdenhosa.
	E mesmo? Tem certeza disso? E ser que ele tem?  acrescentou com ironia.
Anne calou-se e olhou-o, aterrorizada, ao perceber o que Anthony estava insinuando. O caso que ele tivera com Joana em Londres... Ser que tinha terminado depois que ela se casou com Raphael? Eles estavam juntos quando aconteceu o acidente com o barco. Ele e Joana:..
Anne voltou-se para Jssica quando ela entrou na biblioteca. Os cabelos negros e cacheados, os olhos azuis, as feies to parecidas com as de Raphael.
	Ah, sim!  Anne suspirou em resposta s insinuaes de Anthony.  Raphael tem certeza. E eu tambm. E no acho que ele seja um causador de problemas, Anthony. Mas voc, sim. Por que no telefona aos hospitais para saber como est sua me?
Anne virou-se sorrindo para Jssica e agradeceu-lhe pela gentileza:
	Obrigada, meu anjo.
	 o que vou fazer, Anne! Foi bom seu fim de semana? O insulto implcito na pergunta era to claro que Anne olhou-o com desprezo. Como pudera achar algum dia aquele homem atraente? Anthony no passava de um menino mimado que no tinha o menor" respeito pelos sentimentos alheios.
	Muito bom. Lembre-se de sua me.
	Estou indo. Mas, se eu fosse voc, no levaria muito a srio as coisas que aconteceram em Londres. Por mais que nos odiemos, Raphael e eu temos muita coisa em comum.  E, com aquela ltima provocao, saiu da sala para telefonar.
Anne sabia muito bem ao que Anthony se referia. Raphael envolvera-se com Margaret. Pelo visto, ainda estavam envolvidos. O que no impediu que eles se amassem tanto na noite anterior.
Anne fechou os olhos para evitar as lgrimas. Sobreviveria a tudo aquilo. J superara tantas coisas difceis na vida que no seria Raphael a conseguir destru-la.

CAPITULO XI

Jssica estava na cozinha ajudando a sra. Wilson a assar um bolo, e Anne aproveitou para ler um pouco na biblioteca.
Foi ento que ouviu Raphael e Anthony discutindo em algum lugar da casa.
Anthony ainda no fora para o hospital e, infelizmente, por vrias razes, Raphael acabou chegando antes.
	Estou lhe dizendo que isso s interessa a mim  Raphael dizia, com toda a fria.
Anne encolheu-se na poltrona quando percebeu que se aproximavam da biblioteca. A porta batendo indicava que tinham escolhido o lugar mais discreto da residncia para continuar a discusso. Ela estava na poltrona, de costas para a porta, e eles no a,viram.
O que fazer? Se continuasse ali, escutaria tudo. Mas, se notassem a sua presena, talvez se voltassem contra ela. Isso j acontecera antes.
	Voc sabia?  Raphael perguntou num tom de voz muito baixo.  Clia tambm sabia?
	E um assunto familiar, Raphael.
	E eu sou o chefe desta famlia!
	S quando lhe interessa  Anthony desafiou-o, com ironia.  E voc bem sabe que no  sempre.
	Eu lhe fiz uma pergunta, Anthony. Voc sabia que Margaret esperava um filho seu quando saiu desta casa?
Anne levou o maior susto de sua vida. Jamais esperara ouvir uma coisa dessas. Ento Margaret esperava um filho de Anthony!
	 claro que eu sabia.
	E Clia? Tambm?
	Sabia, sabia, sabia!  Anthony confirmou, com impacincia.  Por que acha que mame teve tanta pressa em marcar o casamento para o Natal? Para que nada me impedisse de casar com Davina!
	Mesmo com outra mulher esperando um filho seu!
	Margaret engravidou porque quis. Ela nunca me disse que sua religio proibia o uso de anticoncepcionais. E agora no vai tirar a criana pela mesma razo. Uma boba, isso  que ela ... Ai!  A ironia de Anthony foi interrompida pelo rudo seco de um soco, seguido pela queda de um corpo ao cho.
Raphael tinha batido nele! Anne no viu nada, mas podia adivinhar o que acontecera. Teria feito o mesmo se fosse Raphael. Na verdade, suas mos estavam crispadas, prontas para fazer isso mesmo. Margaret esperava um filho de Anthony e, para ele, isso no passava de uma inconvenincia, algo de que ela poderia livrar-se com facilidade.
	Voc quebrou meu dente, seu idiota!  Anthony tentou levantar-se.
	Sorte sua por ter sido s um dente! Tenho vontade de arrebent-lo inteiro! Voc  a vergonha desta famlia, e quero que saia desta casa!
	No pode me expulsar! Nosso pai deixou bem claro no testamento que esta casa  sua, mas minha me tem o direito de viver aqui at morrer.
	Ela est morrendo, Anthony!
Fez-se um profundo silncio. Anne imaginava o que Anthony estaria sentindo. Ela prpria tinha levado um choque.
	O que disse, Raphael?
	Clia est  beira da morte. Tem um cncer terminal. Ela j sabia, por isso tentou apressar seu casamento. Quer v-lo voc casado antes de morrer!
	No acredito em voc, Raphael.
	No precisa acreditar. Clia mesma vai contar-lhe tudo.
Anne podia imaginar a perplexidade de Anthony. Era uma pessoa to egosta que s a me poderia gostar dele.
E Clia estava morrendo... Anthony sentia dificuldade em aceitar um fato que nem Anne conseguia aceitar. Na verdade, tudo o que ouvira lhe parecia irreal. Embora respondesse a muitas de suas questes.
	Essa  a verdade, Anthony.  Raphael parecia mais calmo agora.
	Preciso v-la.
	Ela est esperando voc.
Anne percebeu que Anthony dirigiu-se  porta, mas parou antes de abri-la.
	Como foi que descobriu que Margaret estava grvida? Voc no tem nada com isso!
	Mas vou ter de sustent-la at a criana, seu filho, nascer. Estou falando srio, Anthony. Voc pode visitar sua me quando quiser, at que ela morra. Depois disso, no quero v-lo aqui nunca mais.
	Quando eu me casar com Davina, e com todo o dinheiro dos pais dela, no precisarei mais voltar aqui!  Anthony saiu batendo a porta.
Anne no sabia o que fazer: se corria para Raphael para confort-lo ou se ficava onde estava para que ele no soubesse que tinha ouvido uma conversa to particular entre dois irmos.
Anthony era mesmo como Anne imaginava que fosse, e at pior. Pouco se importava que sua relao com Margaret tivesse gerado uma criana, e ainda magoava Raphael, que agora sabia que Margaret o trara com seu prprio irmo.
	Pode sair agora  Raphael disse, tranquilo.
Anne gelou. Ela no movera um dedo desde que os dois entraram ali. Se Anthony no estava mais l, Raphael s podia estar falando com ela. Ento ele sabia desde o comeo que Anne estava ali.
	Sei que est a desde que entrei, Anne. Reconheceria seu perfume em qualquer lugar. Alm disso, vi seus cabelos por cima da poltrona antes de voc afundar dentro dela.
Anne levantou-se devagar, ps o livro com cuidado sobre a mesinha e virou-se para ele. Mas levou um susto quando o viu jogar-se, exausto, no sof. No mais com a arrogncia de sempre, mas completamente desgastado. Tambm, diante do que tinha acabado de acontecer, no era para menos!
	Que dia!  Raphael desabafou, passando a mo pela cabea.  O que voc faria no meu lugar? 
Anne no conseguiu responder de imediato.
	Que confuso, hein?
Raphael ficou olhando para ela por um longo momento, ento seus lbios iniciaram uma lenta curva at exibirem aquele sorriso que Anne j tinha aprendido a amar. Como era bom v-lo rir! Sobretudo num momento to grave.
	Uma confuso e tanto  Raphael assentiu, ainda sorrindo, embora com o olhar muito srio.
Anne sentou-se aos ps dele.
	Mas tudo tem soluo. Margaret ter a criana, mas seria muito pior se Anthony quisesse se casar com ela... e ela aceitasse!  Olhava ansiosa para Raphael, tentando aliviar seu sofrimento.
	Isso  verdade. A pobre moa iria cometer o maior erro de sua vida. Margaret no merece esse destino.
Anne tentou sorrir, mas no foi muito bem-sucedida. Amava Raphael e tentava confort-lo por ter perdido seu amor.
	Mas sempre h um jeito para tudo  ela disse, quase chorando.
Raphael baixou a cabea e encarou-a.
	E que jeito  esse?
Anne no soube o que responder. Amava sem ser correspondida. Se Raphael ficasse a seu lado ou fosse embora, daria no mesmo: continuaria amando-o do mesmo modo.
Raphael estendeu a mo para ela.
	No queria que voc soubesse de tudo desse jeito, Anne, mas no sei ia conseguir lhe contar. Sabia que iria sofrer quando soubesse.
Anne lutava contra as lgrimas e um n na garganta.
	A culpa no  sua, Raphael. Mas eu j sabia sobre Margaret.
	Que ela estava grvida?
	Isso no. Mas sabia o que voc sente por ela.
	O que eu sinto? Anne, do que  que voc est falando?
Ficar assim perto dele j estava se tornando quase insuportvel. Afinal, Anne tambm tinha amor-prprio. No muito,  verdade, porque por pouco no fizera amor com Raphael, mesmo sabendo o que ele sentia por outra mulher. Mas desejara muito.
	 muito triste o que est acontecendo com Clia...  Anne mudou de assunto.
Agora era possvel entender muita coisa: tanto repouso, o fato de ela ter emagrecido muito desde que Anne a conhecera, a pressa de que Anthony se casasse logo com Da-vina... No era s por causa da gravidez de Margaret, mas por saber que Raphael e Anthony acabariam se matando se vivessem na mesma casa.
	 mesmo muito triste, Anne. Quando o mdico me contou, percebi que gostava dela, que sentiria sua falta se morresse.
	Que bom que isso aconteceu!
	Tambm acho  Raphael admitiu.  Culpei-a tanto por ter tomado o lugar de minha me que nem percebi que me afeioei a Clia. Mas consegui dizer-lhe isso hoje.
	Fico feliz por isso tambm.
	Ns conversamos hoje como jamais tnhamos feito em toda a vida. Clia me contou uma coisa que eu no sabia. Mame teve depresso ps-parto depois que eu nasci. Se at hoje ningum sabe como tratar isso, imagine h trinta e nove anos. Foi numa dessas crises depressivas que ela se jogou do ancoradouro. Eu nunca soube disso. Meu pai no me contou.
E em todos esses anos tirei concluses erradas.
David Diamond devia ter conhecido Clia antes da morte da mulher. Raphael nunca aceitara esse casamento, e, quando Anthony nasceu, o mais fcil fora culpar Clia pela morte da me. Mas ele estava errado.
Ento fora a me de Raphael quem se matara naquele ancoradouro...
	Seu pai quis proteger voc, Raphael. No queria que uma criana inocente se sentisse responsvel pela morte da me. A depresso ps-parto pode acontecer a qualquer mulher, e a criana no tem nenhuma culpa nenhuma.
Raphael olhou para ela com uma expresso sofrida.
Voc est certa. Foi isso o que papai e Clia decidiram. E foi por isso que minha madrasta guardou segredo at hoje. Talvez tivesse sido melhor para.todos se tivesse me contado.  Raphael estava muito arrependido por t-la odiado tanto, apesar de Clia s ter tentado proteg-lo.
Era uma tragdia. Mas Anne tinha certeza de que ainda havia tempo para uma reconciliao. Na verdade, eles j tinham feito isso.
	Bem...  Raphael ajeitou-se no sof.  Agora me diga o que pensou sobre meu... como foi mesmo que disse? Meus sentimentos por Margaret.
Anne sabia que ele no desistiria com facilidade. Mas no estaria percebendo quanto isso a magoava? Pelo jeito, no, porque parecia disposto a obter uma resposta.
Ela se levantou e comeou a andar na frente da lareira.
	Vi como voc ficou quando soube que Margaret tinha ido embora.
	Eu j sabia que ela havia partido. Encontrei uma carta dela no jornal esperando por mim.
Anne parou por um momento e recomeou a andar.
	Voc estava louco para saber por que Margaret tinha ido embora.
	No estava louco, apenas interessado.
	Estava muito interessado em saber por que Margaret tinha se demitido, Raphael. Fomos para Londres neste fim de semana porque...
	Por qu, Anne? Por que acha que a levei comigo?
	Para no deixar Jssica aqui sozinha.
	Isso tambm,  verdade. Quando eu soube que minha filha tinha sofrido um acidente, lembrei-me de cinco anos atrs, quando Joana morreu. Minha mulher estava com Anthony no barco, sabia?
	Jssica me contou.  Mas no iria dizer o que Anthony insinuara. Joana estava morta, e remexer em velhas mgoas no adiantaria de nada.
Raphael sorriu.
	Anthony no se comporta muito bem como amante.
Ele poder ter lhe dado sua verso dos fatos, mas tenho certeza de que nada disse a seu respeito.  Suspirou quando Anne balanou a cabea. Joana e Anthony j se conheciam antes de ns nos casarmos, e Anthony tentou reatar a relao depois do casamento. No ramos os mais apaixonados do mundo, mas Joana no aceitou e ele ficou enlouquecido. No tenho certeza absoluta de que a morte dela tenha sido acidental. E ento, quando Jssica caiu do cavalo...
Anne olhou-o, horrorizada. Raphael no podia pensar que o prprio irmo seria capaz de uma barbaridade daquelas.
	At hoje concedi a Anthony o benefcio da dvida. Joana sabia nadar muito bem, ao passo que ele detesta gua desde criana. Essa foi a justificativa dele por no ter tentado salv-la quando ela caiu do barco. Desde ento, tenho tentado me convencer de que Anthony disse a verdade. Mas fiquei apavorado quando voc me contou que Jssica tinha cado do cavalo. Minha filha monta muito bem, assim como a me dela era tima nadadora.
	Acha que Anthony tentou...
	Sim. James diz que a culpa foi dele, pois j anda esquecendo as coisas e admitiu que no se lembrava de ter ajudado Jssica a montar, e muito menos de ter ajustado a sela como deve ser. Jssica est triste por James ter ido embora, mas foi ele quem tomou essa deciso.
Sem dvida, a melhor. E Jssica entenderia quando Anne lhe explicasse, mais tarde.
Assim como Anne entendia agora que a verso de Anthony sobre sua relao com Joana era apenas mais um trao de sua mente vingativa. Anne no tinha a menor dvida de que Raphael falara a verdade. Lembrou-se de como Anthony reagira ao perceber que ela estava gostando de seu irmo. Raphael tinha razo: quanto mais longe Anthony ficasse da famlia, melhor.
	Agora, me diga, Anne. Est pensando que estou apaixonado por Margaret? E isso, no ?
Anne no conseguia encar-lo.
	No era a ela que voc se referia quando disse que aceitaria falar com voc ao telefone, mas no pessoalmente?
	Era. E agora entendo por que no queria me ver.
	Por causa da relao dela com Anthony?
	Sim, de certo modo.
	Como assim? No entendo.  E no entendia mesmo.
A nica explicao era que, na ausncia de Raphael, Margaret tinha se envolvido com o irmo dele.
	Acho que voc no vai gostar de saber, Anne.
Assim como no estava apreciando toda aquela conversa.
Era terrvel discutir o que ele sentia por outra mulher. E Raphael estava percebendo isso, e tambm o amor o que Anne sentia por ele. E isso era humilhante.
	Por que no diz logo, Raphael?  Anne suspirou.
	Ontem  noite, quando estvamos juntos...
	Precisa me lembrar disso?
	Eu disse que voc no iria gostar.
	 mesmo necessrio?
	Se quiser saber tudo sobre Margaret, e por que ela no quis me receber, eu acho que sim.
	Bem, ento, vamos l.
Raphael ergueu o queixo de Anne para olhar bem em seus olhos.
	Gostaria que a noite de ontem no tivesse acontecido, Anne?
	No, no!
	Fico feliz de ouvir isso.  Raphael revelou, aliviado.
	Fica mesmo?
	Oh, Anne,  claro que sim!  Abraou-a.  Ainda no percebeu que amo cada pedacinho de voc, que s levei vocs duas a Londres porque no ia conseguir ficar sem sua presena nem por alguns dias?
Anne achou que estava ouvindo coisas. S podia ser. Raphael no acabara de dizer que a amava. Ele no tinha feito isso. Ou ser que sim?

CAPITULO XII

	Eu te amo, Arme Fletcher. H quanto tempo no digo isso a ningum! Os olhos dela arregalaram-se. Era s o que tinha a fazer.
	Mas... e Margaret?  perguntou, desesperada.
Raphael sorriu.
	Por essa pergunta, posso imaginar o que anda passando por essa linda cabecinha, mas juro por tudo o que me  sagrado que no sei de onde voc tirou essa ideia. Para mim, Margaret foi bab de Jessy, e nada mais.
	Mas...
	Nada alm disso, Anne, nunca. No digo que no tive outras mulheres depois que Joana morreu, mas foram poucas, e Margaret no est entre elas. No, eu estava esperando por uma ruivinha que me fizesse rir e despertasse meu desejo.  Raphael sorria como nunca tinha feito antes, o amor danando naqueles olhos to azuis.  Eu te amo, Anne. Quero me casar com voc, ter filhos. Sinto apenas no ter uma famlia melhor para oferecer-lhe, mas  a nica que possuo. Quando tivermos nossos bebs, ento...
	Est me pedindo em casamento?  Ela no estava acreditando no que ouvia.
	Claro que sim! Afinal, j nos deitamos na mesma cama e no posso comprometer minha reputao.
Anne gargalhou.
	No  to mal assim. Pretendo parar de viajar. J  hora. Na verdade, eu viajava tanto porque no conseguia ficar nesta casa. Se voc estiver aqui, no vou querer mais ir embora. Quero escrever o livro, que est na minha cabea h anos, mas nunca tive vontade de parar para faz-lo. Agora tenho.  Raphael afastou-se para olh-la.  Quero que me diga se estou indo muito depressa ou querendo muita coisa. Se voc no quiser o mesmo que eu, por favor, diga logo. Se  a Anthony que voc ama...
Casar-se com Raphael. Ficar com ele e Jssica para sempre. Ter seus prprios filhos!
	Oh, Raphael!  Anne encostou a cabea no peito largo. 	Eu no amo Anthony. Nunca amei. Quero me casar com voc, porque tambm te amo. No h nada melhor para mim do que ficar a seu lado para sempre.
Anne abraou-o com tanta fora que seus braos doeram. Raphael respirou aliviado.
	Graas a Deus, Anne! Por um momento, voc me deixou preocupado. Mas no poderia imaginar tudo aquilo que houve entre ns ontem  noite se voc no me amasse.
	Nada teria acontecido.
Raphael baixou a cabea para beij-la.
Mais tarde, quando ambos estavam sentados no sof, voltaram a falar sobre Margaret.
	Lembra-se de que no fizemos amor ontem?  Raphael olhava-a de uma maneira to provocante que a fez corar.
	Foi melhor assim. Nossa primeira noite ser na lua-de-mel. Como deve ser. Como voc merece que seja.
	E Margaret?  ela insistiu, antes que o assunto fosse evitado outra vez.
	Quando conversamos, Anne, entendi por que Margaret no quis conhecer-me. Ela est grvida de cinco meses. J se nota bem a gravidez.
Raphael no amava Margaret. Ele s queria deixar tudo esclarecido, ainda mais depois da carta que recebeu dela comunicando sua demisso.
	Precisamos ajud-la, Raphael. Essa criana faz parte da sua famlia.
Anne queria muito ajud-la. Como tambm cuidar de Clia at que ela no precisasse mais.
Com o tempo, Raphael lhe falaria de sua infncia, de seu pai, da me que no conhecera, do casamento que no tinha sido o maior amor do mundo. E Anne se lembraria sem mgoas de sua infncia solitria, das crianas do orfanato, do sentimento de no pertencer a ningum nem a um lugar.
Porque agora tudo era diferente. Sentia que pertencia a Raphael e viveria com ele para sempre.
Sua vida mudaria. Seria amada, protegida. A sra. Diamond.
Enfim, chegou o dia do casamento.
E Raphael, aps ter se negado a passar a noite da vspera num hotel, ideia de Clia, estava no quarto de Anne havia uma hora. Entrou para levar-lhe uma xcara de caf e no saiu mais.
Ele ergueu a cabea para olh-la:
	Anne, eu...  Mas parou quando algum bateu de leve na porta.
	Anne, voc j acordou?  Era Clia.  J  hora de comear a se arrumar.
	Meu Deus!  Raphael pulou do leito, com a camisa amassada, para fora da cala, os cabelos despenteados.  Clia deve conhecer algumas supersties sobre antigas noi vas, e vai me pr para fora daqui!   
	Raphael?  Clia chamou, desconfiada.  Voc est a?
Anne abafou a risada no travesseiro ao ver a expresso dele.
	Entre, Clia  ela convidou, apesar do pavor de Raphael.
	Eu ouvi sua voz  Clia ralhou com ele, j dentro do aposento.  No sabe que d azar ver a noiva antes da cerimnia?!
	Viu s, Anne? Eu no disse que ela conhece todas as histrias? Um monte de crendices! As mulheres desta famlia no so famosas por sua sorte. Por isso mesmo quase no pedi Anne em casamento.
	Isso sim  que  crendice  Clia interrompeu-o. Ainda estava muito frgil, mas a doena tinha se estabilizado.  Eu j lhe contei sobre a morte de sua me, Raphael. A de Joana foi um acidente. Alm disso, eu sou uma Diamond, e seu pai e eu vivemos muito felizes durante trinta anos.
Anne viu, nos ltimos trs meses, a relao daqueles dois teimosos se transformar em profunda amizade. E Clia prontificou-se a ajudar no que fosse preciso para o casamento, desde escolher o vestido de noiva, o vestido de dama de honra de Jssica, a cerimnia, at a recepo.
O casamento de Anthony e Davina acontecera no ms anterior. Anthony continuou visitando a me, mas ficou longe de Anne e Raphael. Davina no permitiu mais que ele viajasse sozinho. Na verdade, a aparncia e a voz infantil de Davina desapareceram de um dia para o outro para dar lugar a uma mulher muito mais dominadora do que Clia j fora um dia.
E, com o casamento de Anthony realizado, e seu futuro garantido, Clia dedicou-se por inteiro ao enlace de Raphael e Anne, que aceitou, aliviada, sua ajuda. Na verdade, o comportamento distante de Clia nada mais era que uma forma de proteger-se. O passado, por fim, encontrou seu lugar, as barreiras ruram e Clia revelou-se uma excelente me adotiva para Raphael e tambm para Anne. Todos sentiriam muita saudade quando ela partisse.
 Eu sei que vocs foram muito felizes  Raphael tocou com gentileza o ombro de Clia. Assim como sei que Anne e eu tambm seremos.
Anne tambm no duvidava disso. Os trs meses que passara ao lado dele foram mais que suficientes para garantir um futuro cheio de alegria.
Jamais imaginara o que aconteceria quando foi trabalhar naquela casa. Anne e Raphael formariam outra famlia, com Jssica e Clia includas naquele crculo de amor.
Agora Anne estava para se tornar a sra. Diamond, esposa e me.
Sua felicidade estava completa.
Para sempre!

FIM
